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Racismo e preconceito: conheça a história por trás dos zoológicos humanosBuzz

Racismo e preconceito: conheça a história por trás dos zoológicos humanos

Alguns dias atrás a atriz Zezé Motta se mostrou surpresa e indignada ao se deparar com uma foto que vez ou outra aparece internet afora. Nesta foto, uma criança negra está em uma espécie de cerca, parecida com uma jaula, enquanto recebe comidas de famílias brancas.

Como esta foto sempre reaparece por aí, muitos consideram que ela represente o que se chamou de “zoológicos humanos” ou, de forma eufemizada, “vilarejos étnicos“. Mas o que isso significa? É mesmo verdade? Negros eram presos em locais para exibição pública? A resposta, infelizmente, é sim.

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Tribo Nyambi é exibida no jardim zoológio da Acclimation de Paris, em 1937. Foto: grupo de Pesquisas Achac, coleção particular

Zoológicos humanos e as diferenças étnicas dos Séculos XIX e XX

Zezé Motta estava mesmo certa e a foto representa uma prática comum em países da Europa, além dos Estados Unidos, em meados dos Séculos XIX e XX, acredite!

Na publicação feita em seu Facebook, a atriz se mostrou chocada com a prática, e indagou seus fãs sobre a veracidade da imagem. A publicação conta hoje com mais de 20 mil compartilhamentos.

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Há menos de 60 anos, existiam zoológicos como este, onde negros, geralmente africanos, eram expostos para as crianças brancas. Foto de um zoológico humano, tirada em 1958 na Bélgica. Chocada com isso! ?#?RACISMO?

No Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX os grandes países tinham o poder de dominar e colonizar diversas áreas do globo, e isso fazia com que se tivesse a necessidade de alardear determinadas vitórias.

Os zoológicos humanos eram um pouco disso. Países colonizadores traziam famílias inteiras dos países colonizados para exposição nas grandes cidades.

Funcionava da seguinte maneira: toda família diferente do estilo de vida europeu ou americano era considerada estranha, e o estilo de vida diferente servia como chamariz e curiosidade para os povos mais “normais.

Estas famílias muitas vezes eram consideradas aberrações e tinham suas diferenças escancaradas com um único motivo: divertir e entreter uma elite branca.

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Guillermo Antonio Farini, apresentador de shows excêntricos, posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres. Foto: Pitt Rivers Museum, Universidade de Oxford.

Guillermo Antonio Farini, apresentador de shows excêntricos, posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres. Foto: Pitt Rivers Museum, Universidade de Oxford.

Quem eram as ‘aberrações’?

As aberrações compreendiam tudo que era considerado exótico, selvagem ou monstro, deixando ampla a definição de quem se classificaria nessas expressões.

Não somente negros entraram na lista, mas índios também, bem como pessoas com deficiência e asiáticos. Assim, a classe elitista branca criava verdadeiros espetáculos que fortaleciam ainda mais o racismo e o preconceito.

Muitos dos detalhes destas exposições foram catalogados no livro Zoológicos Humanos, do historiador francês Pascal Blanchard, que também foi curador de uma mostra em 2011, realizada em Paris, sobre o assunto.

Para se ter uma ideia, a tal mostra reuniu cerca de 600 obras, entre fotos, vídeos e arquivos, além de pôsteres dos espetáculos e objetos usados por cientistas no Século XIX.

Índios Galibi, que vivem no Oiapoque (entre o Brasil e a Guiana Francesa), são exibidos em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Índios Galibi, que vivem no Oiapoque (entre o Brasil e a Guiana Francesa), são exibidos em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Sim, como se não bastassem as exposições preconceituosas, os diferentes ainda sofriam com experimentos e testes médicos, como o que media o tamanho dos crânios destas pessoas.

Foi neste tempo também que as primeiras noções de hierarquia racial foram desenvolvidas. A principal delas? A tese que apontava os africanos como o elo perdido entre o “homem moderno” e o macaco.

O Brasil também serviu de “exportador” para zoológicos humanos na Europa. Em 1550, por exemplo, os exploradores que aqui desembarcaram levaram uma família inteira de índios Tupinambás para a França. Lá eles foram expostos e desfilaram para o rei Henrique II.

Outras pessoas, com deformações físicas e mentais, também eram expostas e cunhadas de “selvagens”. Por muitos anos Saartje Baartman viajou toda a Europa sendo exposta unicamente por ser uma africana de bumbum avantajado.

Sul-africanas da tribo khoisa (ou hotentote, como era conhecida) como Strinée (foto), com nádegas extremamente proeminentes, eram exibidas como atrações na Europa no fim do século 19. A mais famosa foi Saartje Baartman, a "Vênus Hotentote", exibida em Londres em 1810 e em Paris em 1815. Foto: Louis Rousseau / Museu do Quai Branly

Sul-africanas da tribo khoisa (ou hotentote, como era conhecida) como Strinée (foto), com nádegas extremamente proeminentes, eram exibidas como atrações na Europa no fim do século 19. A mais famosa foi Saartje Baartman, a “Vênus Hotentote”, exibida em Londres em 1810 e em Paris em 1815. Foto: Louis Rousseau / Museu do Quai Branly

Vilarejos

A comparação é triste e infeliz, mas imagine a Disneyland, com diversas famílias indo se divertir. Era o que acontecia em diversos locais, mas com um viés racista e preconceituoso difícil de engolir hoje em dia.

Paris, por exemplo, recebeu no ano de 1985 uma exposição foi montada próxima à torre Eiffel, com apresentações sensacionalistas de mulheres quase nuas e homens considerados canibais.

O interesse por esses verdadeiros shows de horrores teve seu pico entre os anos de 1890 e 1930, caindo em ostracismo depois disso por muitos fatores.

Já na década de 1930 a falta de interesse do público, o desejo das grandes potências em excluir o “selvagem” das propagandas de colonização e, pasme, o surgimento e popularização do cinema ajudaram a decadência do formato preconceituoso.

Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas assistiram a apresentações étnicas ou visitaram zoológicos humanos. O último deles data de 1958, quando um vilarejo congolês em Bruxelas teve de ser fechado depois de inúmeras críticas e a morte de mais de 250 congoleses depois de serem expostos. Eles foram enterrados como indigentes.

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Prática continua, mesmo eufemizada

Por mais que tudo isso pareça absurdo, ainda hoje vemos resquícios desta prática em diversos lugares, principalmente em programas de TV sensacionalistas.

Diferentes pessoas consideradas anormais ainda são usadas como entretenimento e se confundem com um viés cultural. Podemos ver por exemplo um chinês comendo grilo na TV, algo comum na cultura deles, ao mesmo tempo em que negros, gays e deficientes também aparecem na televisão mostrando algumas características depreciativas.

O que mudou d Século XIX para cá? Sinceramente, acho que não muito. É claro que hoje nem conseguimos imaginar um zoológico humano, mas a prática continua velada também em pequenos circos.

Mulheres com proeminência de pelos no rosto ainda se apresentam como mulheres barbadas, e outras ainda carregam a velha alcunha brasileira da “Conga”, a mulher-macaco.

A prática ainda persiste ainda que o mundo tenha mudado. O preconceito hoje é mais conhecido e talvez por isso se apresente de forma tão dolosa quanto antes, mesmo que de uma maneira mais escondida.

Mas ele ainda existe. Infelizmente existe, Zezé Motta.

Índios Galibi, que vivem no Oiapoque (entre o Brasil e a Guiana Francesa), são exibidos em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Índios Galibi, que vivem no Oiapoque (entre o Brasil e a Guiana Francesa), são exibidos em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Pessoas com deformações mentais e físicas também serviam de atração para o público europeu, como o 'homem-cachorro', que sofria de hiperpilosidade. Foto: Museu do Quai Branly

Pessoas com deformações mentais e físicas também serviam de atração para o público europeu, como o ‘homem-cachorro’, que sofria de hiperpilosidade. Foto: Museu do Quai Branly

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Cartão postal apresenta javanesas Kapong na Exposição Universal de Paris de 1889, que marcou a inauguração da Torre Eiffel. Foto: grupo de Pesquisas Achac, coleção particular

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Mulher da etnia Achanti, de Gana, é exibida no jardim zoológico da Acclimation de Paris, em 1903. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

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Em 1895, o fotógrafo Joannès Barbier organizou uma exibição no Champs de Mars, em Paris, de 350 pessoas senegalesas e sudanesas. Barbier realizou três exposições “reconstituindo” vilarejos africanos. Foto: Joannès Barbier, Museu do Quai Branly

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Esquerda: Pôster do Circo Robinson anuncia um espetáculo com ‘povos selvagens’, afirmando ser a maior exibição do século. Direita: Livro intitulado ‘As Raças Humanas’, de 1921. Fotos: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

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