Zeca Camargo e a pobreza da alma cultural brasileiraEditorial

Zeca Camargo e a pobreza da alma cultural brasileira

zeca-camargo-pobreza-cultural-brasileira-agambiarra

A morte de Cristiano Araújo foi certamente o assunto mais comentado nas mídias brasileiras na última semana. A extensa cobertura do assunto gerou opiniões divergentes, como acontece com qualquer assunto, e tomou proporções ditas inimagináveis pelos funcionários de grandes meios de comunicação que se dizem a “grande mídia”. Ora, a morte também é produto midiático, não é mesmo?

O conceito de cultura é erroneamente difundido por esse pessoal responsável pelos maiores meios de comunicação tradicionais do país. Parte-se do pressuposto que para se ter cultura, deve-se respeitar a uma série de preceitos definidos por uma – também autointitulada – “elite pensante”, os quais ditam os limites culturais adequados a uma sociedade. Recapitulando o famoso antropólogo Roger Keesing, temos um conceito interessante para o termo.

“Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica, padrões de estabelecimento, de agrupamento social e organização política, crenças e práticas religiosas, e assim por diante.”

A cultura, ainda que se possa generalizar em ambientes macro – como a cultura de um país –, pode ser dividida em espaços menores – como a cultura de uma região, cidade ou mesmo de um grupo específico de indivíduos. Assim sendo, falar em ausência ou pobreza cultural é uma enorme presunção de alguém que se coloca em uma posição de superioridade e arbitrariedade cultural. Diplomas não fazem cultura. Pessoas, sim, fazem cultura.

Ontem, Zeca Camargo, funcionário da emissora de TV de maior audiência do país – em luta constante contra a perda desta –, publicou uma crônica a respeito, entre outras coisas, da comoção com a morte de Cristiano Araújo e da “pobreza da alma cultural brasileira”. Colocou em cheque a importância do cantor sertanejo para a música brasileira e citou “ídolos de verdade” – de sua opinião pessoal – considerados por ele os verdadeiros representantes da relevância musical, como Pitty, Mamonas Assassinas e Cazuza; mas não cabe discutir aqui a real relevância desses artistas.

Não é necessário entrar em discussões acadêmicas para perceber a ditadura cultural. A música de gueto, conhecida no mundo como Global Bass – compreendida por ritmos como Dancehall, Kuduro, Cumbia, Tecnobrega, Funk, Ragga, Miami Bass, entre outros – surgiu nas periferias, favelas e nos rincões mais pobres do planeta, fora do ‘radar da grande mídia’. Até que, um belo dia, um estadunidense, branco e com ideias na cabeça, resolveu passar um tempo na Jamaica, descobriu a riqueza cultural das periferias mundo afora e a levou aos grandes centros. Hoje, ele é conhecido como Diplo e declarou, de forma clara e objetiva à mídia, que só conseguiu sucesso porque é branco. Faltou vir um branco de fora ao Brasil para dizer que Sabotage era um gênio da música, então? Será que Cazuza teria sido ouvido se não fosse rico e branco?

O elitismo arraigado da elite, por Zeca Camargo

Zeca ainda destilou mais seu elitismo durante a leitura de sua crônica. Disse que Cristiano não era um “consenso popular”, que “qualquer um pode ser uma estrela, ainda que por um dia”Sem entrar no mérito sobre a relevância dos dois primeiros, “ídolos de verdade” e emendou com uma triste comparação aos famigerados livros para colorir, atualmente em voga nas livrarias do país. Parece que, de tanto viajar, Camargo perdeu a noção de espaço, acha que está vivendo na Europa e esqueceu que, no Brasil, menos de 5% da população frequenta museus – e isso é uma característica do nosso país, que de seus mais de 500 anos, passou 389 sob o comando de outro que pouco se importava com seu desenvolvimento. Ainda há muito a se fazer por aqui e a responsabilidade é da sociedade inteira; mas não somos franceses nem temos os seus hábitos – e isso não faz de nós melhores ou piores.

Ora, o que sabe o autor de consenso popular? Que autoridade ele tem para ditar que artista é aclamado ou não? Zeca passou de carro pelo interior do Centro-Oeste e se achou no direito de falar sobre o que não conhece. A “insana cobertura” do funeral de Cristiano, à qual Camargo se refere, foi feita também pela emissora que paga seu salário. Talvez ele tenha parado no tempo e ainda não tenha entendido que muitas, inúmeras, incontáveis coisas que fogem do ‘radar da grande mídia’ são melhores do que as que estão sob seus holofotes – falamos todos os dias de muitas delas aqui neste site. Nem sempre se quer estar na mira desse radar, Zeca.

A pobreza da alma cultural brasileira a que ele se refere, em verdade, é usada para diminuir o que não interessa às ‘grandes mídias’. O carnaval do Rio de Janeiro se difere, em termos culturais, do sertanejo, em quais instâncias? Simples: o Carnaval dá, e muito, dinheiro à Globo. O sertanejo está no interior do interior, onde eles não alcançam. No máximo, um contrato na Som Livre para aqueles que conseguem encher shows em São Paulo e no Rio e uma participação no programa da Fátima Bernardes ou do Luciano Huck. E, mesmo assim, é muito maior que grande parte dos artistas que a emissora vende como sensações nacionais – se a memória lhe trouxe Sandy e Wanessa Camargo agora, é um sinal divino, nada mais.

Se a alma da cultura brasileira é pobre, ela o é unicamente por responsabilidade dos autointitulados formadores de opinião e grandes comunicadores. Eles, que deveriam retratar nossa cultura com imparcialidade e variedade, desde o funk carioca e o sertanejo até bossa nova e rock, produzem personagens de fato irrelevantes e os promovem à exaustão. Cristiano Araújo, apesar dos adjetivos dados por Zeca Camargo, soa muito mais relevante que Dinho Ouro Preto; tanto em música quanto em caráter e certamente tinha mais público em seus shows.

Ao final, Camargo cita Tina Turner e pede por “um novo herói”, um “héroi de verdade”. E ele não poderia estar mais certo. Precisamos de um herói – melhor ainda se for uma heroína – que destrua de vez o elitismo cultural tão impregnado no Brasil. Precisamos de um herói que mostre a nossa cultura de verdade, sem se preocupar se ela vem da favela ou não. Precisamos de um herói que rompa as amarras de mais de 50 anos de manipulação midiática e nos coloque nos holofotes pelo que realmente somos, em todas as nossas variações.

E aqui, um convite a Zeca Camargo. Vamos juntos ao Centro-Oeste – onde passei boa parte da vida – para conhecer capitais e interior. Certamente você verá a diferença entre os “ídolos de verdade” e os ídolos que a emissora onde você trabalha fabrica.

Facebook Comments