Som automotivo virou patrimônio cultural de Belém: por que isso irrita?Buzz

Som automotivo virou patrimônio cultural de Belém: por que isso irrita?

A Câmara Municipal de Belém reconheceu no início do mês de agosto o som automotivo como patrimônio cultural e imaterial da capital do Pará. O projeto de lei foi feito pelo vereador Mauro Freitas do PSDC e, não era de se surpreender, está gerando muita polêmica com sua aprovação.

As opiniões sobre a decisão da câmara são variadas. “Poluição sonora é patrimônio cultural?” é um dos inúmeros comentários negativos – que chegam a ofensas – no post que anuncia a aprovação do projeto. Outras preocupações giram em torno de uma lei federal que regulamenta os sons em ambientes públicos e cria uma limite de decibéis para não perturbar a ordem. Alguns comentários dizem que o projeto estimularia a prática de violação da convivência.

Porém, essa parte não precisa ser levada em conta. O vereador que escreveu o projeto já adiantou que o motivo do reconhecimento do som automotivo pode ajudar a dar fim às irregularidades. Ele ainda garante que, mesmo sendo patrimônio, não quer dizer que som dos carros será desregrado.

Mas, então, por que as pessoas não estão contentes com isso?


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Som automotivo como patrimônio cultural. Por que isso irrita?

Assim como o funk carioca, a aparelhagem paraense é uma cultura periférica e muito popular. As festas de tecnobrega geralmente são realizadas em locais abertos e rodeadas de carros estilizados com um som potente. Contudo, o estilo musical não encontrou espaço nas gravadoras e teve que arranjar outros meios de se propagar. É aí que som automotivo entra.

E entra com tudo. Existem até competições para ver quem tem o aparelho mais bonito. Os carros são tunados, ganham luzes, são rebaixados. A estética do eletrobrega está traduzida nesses automóveis e nas competições. E toda a produção desses eventos, desde a alteração nos carros à venda de bebidas nos locais, movimentam a economia local.

Para se ter uma ideia, os eventos chegam a receber mais de 4 mil pessoas. Isso já acontece sem que o som automotivo esteja oficializado como patrimônio cultural. Os eventos de som automotivo são o entretenimento de quem não tem 70 reais para ver um show em um teatro, por exemplo.

É importante ter em mente quem produz o eletrobrega e participa com fervor dessas competições. Quem consome é uma classe que não tem acesso aos meios culturais mainstream impostos por uma aristocracia que não aceita outras produções que não passem por sua aprovação. Por isso irrita. Não faz parte do gosto culto que dizem ser o requintado. O requinte aqui é outro e vai continuar sendo.

Em 2011, o som automotivo na cidade de Belém foi proibido por que perturbava o ambiente. Mas foi preciso voltar atrás porque é melhor regulamentar a atividade do que inibí-la. Ela continuaria acontecendo de qualquer jeito, até “ilegalmente”, porque faz parte da identidade local.

Michele Bastos, presidente da Associação Som Automotivo do Pará, diz que criou-se a ideia de que quem tem som automotivo é baderneiro. Agora, com a aprovação do projeto, ela comemora:

Não queremos só a liberação do som, queremos a regularização e conscientização tantos dos participantes do som automotivo, quanto da população, para que isso aconteça de uma forma harmoniosa na sociedade. Estamos muito felizes e agradecidos.

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