Quando uma Globeleza sofre racismo no CarnavalEditorial

Quando uma Globeleza sofre racismo no Carnaval

Agora que o Carnaval passou, novas histórias serão contadas. Será um longo ano até o início de 2017, quando mais desfiles acontecerão, mais festas preencherão as ruas e mais brasileiros demonstrarão sua felicidade em comemorar a festividade. Mas uma coisa continuará igual: o racismo no Carnaval, que reflete nada mais do que o preconceito que ainda existe no nosso país.

Tal preconceito foi escancarado por um vídeo feito pelo The Guardian, um dos mais respeitados jornais americanos. A publicação teceu, em oito minutos, diversas razões que se não comprovam, fazem com que percebamos que nosso próprio povo parece não aceitar (ainda) negros em destaque social.

E quando falamos em destaque social, estamos dizendo de negros na mídia, que chegam ao ápice de seu sucesso profissional. E por mais que seja uma festa, o Carnaval continua sendo uma profissão para muitas pessoas, em sua maioria, de pele negra.

https://www.facebook.com/theguardian/videos/10153931773996323/?permPage=1

O racismo no Carnaval existe mesmo?

Mas vem cá, é certo resumir a cor negra à bundas e mulheres sambando seminuas em diversos momentos da televisão? Possivelmente isso é assunto para outro texto. O foco aqui é apenas um: independente do papel que uma negra desempenha na mídia, ela possivelmente sofrerá preconceito.

Foi o que aconteceu com Nayara Justino, e você provavelmente não a reconhecerá pelo nome. Nayara foi a Globeleza do Carnaval de 2013, escolhida pelo voto popular em um concurso realizado pela TV Globo.

Ela ganhou o título de Globeleza, sucedendo Valéria Valenssa (Globeleza entre 1991 e 2004), Giane Carvalho (2005) e Aline Prado (2006 a 2013). Porém, o que se viu logo após a coroação de Justino foi o fim de um conto de fadas.

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O racismo no Carnaval existe mesmo

E não só no Carnaval; mas o que o The Guardian mostra comprova que em meio a uma das maiores festas populares do mundo, muita coisa acontece, e de forma negativa. Após ser escolhida pelo voto do público, muitas pessoas invadiram a internet com comentários preconceituosos voltados para Nayara.

A crítica principal: a cor da sua pele. Note que e aqui temos duas pequenas contradições. A primeira delas: o povo reclamando e menosprezando uma mulher que o próprio povo escolheu. Certo, não deve ter sido o mesmo povo, mas é algo curioso e estranho de se pensar.

A segunda contradição é mais cultural, enche de dúvidas, mas prova que o Brasil ainda precisa amadurecer muito em relação ao preconceito, sua história e cultura: o estereótipo de negra no Carnaval representa mesmo isso: uma mulher negra que samba muito bem. Afinal, o Carnaval é essencial e culturalmente negro, não é mesmo?

Pois bem, Justino viu a cor da sua pele virar alvo de preconceito porque muita gente a achou negra demais. E isso é algo absurdo de se imaginar, mas foi o que de fato aconteceu. Assim que foi anunciada, os comentários já surgiram. Depois disso, quando a vinheta Globeleza foi ao ar, mais comentários depreciativos.

Pessoas reclamavam de uma negra na TV, comentavam que ela era bem mais negra que suas antecessoras (“classificadas”, também entre aspas, de mulatas); outros faziam comparações chulas, dizendo que ela parecia o Zé Pequeno, de Cidade de Deus; alguns ainda riam de Nayara, comparando seus seios naturais a “tetas de índia”.

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O que acontece, de fato?

Acontece que o brasileiro foi, é, e será preconceituoso ainda por muito tempo. Temos orgulho do nosso país, mas é só passarmos por algum problema que viramos as costas e apontamos o outro como culpado. Faz parte da nossa cultura ser assim, basicamente.

Ver uma mulher negra conquistando um posto de destaque na TV gera inveja, críticas e preconceitos. Deste modo, o que aconteceu no Carnaval de 2013 refletiu essencialmente o nível do preconceito e do racismo no Brasil.

Depois das críticas, Nayara foi substituída no ano seguinte, dando final a um sonho comparado a um conto de fadas, com direito a bruxas e sem final feliz.

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Maju Coutinho, Thaís Araújo e Ludimilla

E não é somente no Carnaval que o racismo aparece. A jornalista Maju Coutinho sofreu os mesmos preconceitos quando ganhou o cargo de Mulher do Tempo no Jornal Nacional. Aparecendo para milhões de brasileiros, todos os dias, de forma espontânea e informal, Maju se viu alvo de críticas sobre sua cor de pele, e foi xinganda de diversos nomes chulos.

Após o ocorrido, o próprio JN lançou vídeos de repúdio aos atos criminosos, colocando na internet mensagens de apoio. Outras celebridades e mais milhões de anônimos abraçaram a hashtag #TodosSomosMaju, em apoio à jornalista.

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Thaís Araújo também sofreu preconceito e críticas à cor da sua pele logo depois que estrelou Mr. Brau, série da própria Globo estrelada também por Lázaro Ramos, marido de Thaís.

Mais recentemente, a cantora Ludmilla se viu sendo bombardeada por críticas no Carnaval deste ano, quando a socialite Val Marchiori comentou que o cabelo da jovem artista parecia um BomBrill. Ludmilla respondeu à critica de forma superior, e Val pediu desculpas em suas redes sociais:

Realmente, não gostei de como estava o penteado e não do cabelo em si. Cada um tem o seu, a diferença é o modo como usa. (…) falei que não gostei do penteado escolhido! (…) E independente da cor da pessoa, do jeito da pessoa, ou da pessoa em si. Não gostei, achei que não ficou bom para o look e falei. Agora, pensar que isso possa representar algum tipo de inferioridade ou superioridade como algumas pessoas disseram, já é demais. A pessoa, seu caráter, sua vida, quem faz é ela própria e não seu cabelo ou peruca. Hello! Pensar dessa forma até me enoja! Não foi preconceito.

Talvez, ser livre de preconceito é esquecer que o preconceito existe, infelizmente. Por esse motivo então, peço desculpas. As pessoas falam do meu cabelo, que parece cor de ovo, que é de perua, que é de pobrinha que ficou rica, que é cafona, que a gente acha normal poder comentar livremente do cabelo dos outros, sem pensar que talvez mais coisas estejam envolvidas

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Qual é o real problema?

Neuza Borges, uma das atrizes mais expressivas do Brasil, aparece no vídeo sobre o Carnaval e Nayara Justino. Neuza tenta justificar o que aconteceu com a dançarina seguindo sua própria experiência de vida:

Negro no Brasil tem vergonha de ser negro

E isso se deve basicamente por conta do preconceito que os negros sofrem no país. Negro tem vergonha de ser negro porque o negro é o único que sofre com todos estes problemas. É ele que ouve comentários depreciativos, recebe xingamentos e são alvos de críticas a todo momento.

Neuza então completa seu comentário com uma frase que ela ouviu muito quando mais nova, principalmente vindo de sua avó:

É bom encontrar um homem branco pra se casar, pra melhorar a raça

E se você achava que essa história de negro ter vergonha de ser negro, esta última frase exemplifica bem isso. Por séculos os negros foram desprezados no país, e para eles a única forma de se livrar disso e dar um futuro melhor para seus filhos seria “diluindo” a raça pos aí. Ledo engano.

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Globeleza 2013 Vs. Globeleza 2014

No posto de Globeleza, Nayara foi substituída por Erika Moura, que tem a pele mais clara. Na verdade, todas as Globelezas têm a pele mais clara que a de Justino. Mas isso importa? Parece que sim.

Pelo menos para as pessoas que criticaram a dançarina de 2013. A Globo reagiu trocando a Globeleza no ano seguinte, e sem votação popular. Muitos reclamaram dessa troca, achando que a emissora tentou abafar o problema, e varrendo tudo para debaixo do tapete.

Nayara ainda afirmou que entrou em depressão durante o ano em que se tornou musa do Carnaval; mas hoje tudo foi superado. Ela foi pedida em casamento, fez novelas e inúmeras outras participações. Ela sentiu na pele todo o preconceito e deu a volta por cima, mostrando que pele, na verdade, não importa muito se você se amar, acima de tudo.

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