Exposição LGBT ‘Queermuseu’ é cancelada; o que isso diz sobre a liberdade de expressão?Artes

Exposição LGBT ‘Queermuseu’ é cancelada; o que isso diz sobre a liberdade de expressão?

Santander causou polêmica ao cancelar a já polêmica exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira.

A exposição, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, estava no Santander Cultural, em Porto Alegre. A ideia era que ficasse de 15 de agosto até 8 de outubro, mas foi cancelada nesse domingo (10). A ideia era propor reflexões sobre gênero e diversidade, mas muita gente se sentiu ofendida por algumas peças. Queermuseu contava com 270 peças de 85 artistas, incluindo Cândido Portinari, Ligia Clark e Alfredo Volpi.

A polêmica foi tão grande que o banco recebeu 20 mil reações negativas em sua página no Facebook, a maioria dizendo que pretender cancelar a conta no banco. As pessoas se queixam de blasfêmia e apologia à pedofilia e zoofilia, e páginas grandes como o Movimento Brasil Livre e a da apresentadora Luísa Mell se posicionaram contra a exposição.


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‘Queermuseu’: Debatendo religião

Abordar questões religiosas, sobretudo em tom de crítica, nunca é fácil. Algumas peças do Queermuseu traziam críticas ferrenhas ao Cristianismo, como óstias com palavras como ‘língua’ ou ‘vagina’ escritas. Para os cristãos, a óstia é sagrada, porque é/representa o corpo de Cristo.

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Por outro lado, a religião predominante no Brasil, que a gente sabe ser laico só no nome, não é impassível de críticas. Ainda mais numa exposição com temática LGBT, uma minoria bastante criticada por entidades religiosas.

Não é minha intenção entrar no debate de o que é ou não arte, porque sequer caberia nesse texto. O que quero trazer para debate é: qual o efeito dessas obras? Sim, elas causam estranhamento e promovem o debate. Mas para além disso, elas de fato trazem reflexão sobre o papel da Igreja na nossa sociedade, e como isso interfere na vida de pessoas LGBT? E a quem elas trazem reflexão?

E cancelar a exposição por isso? Vai sanar o debate ou ampliá-lo? E as demais obras do Queermuseu, que eram abertas a visitação e aumentavam o repertório cultural de várias pessoas? Será que foi a melhor solução?

Criança viada é pedofilia?

Sobre a questão de pedofilia, acho que a crítica simplesmente não cabe. A obra em questão que faria apologia ao crime, traz dois meninos pintados, com as frases ‘criança viada travesti da lambada’ e ‘criança viada deusa das águas’, em estêncil.

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Mas o termo ‘criança viada’ nunca foi sobre pedofilia, e sim sobre crianças que desde novas demonstravam inconformidade com normas de gênero. Tem até o finado tumblr Criança Viada, que trazia fotos de crianças ””’pintosas””’, que acabaram (ou não) por se assumir homossexuais no futuro.

E, ora, se orientação sexual é inata, haveriam crianças homossexuais e héteros, não? E além disso, roupinhas de ‘100% garanhão’ e ‘vou dar trabalho pro papai’ são vendidas aos montes, e ninguém diz que isso é pedofilia.

Zoofilia no ‘Queermuseu’

E, por fim, o quadro que faria referência a zoofilia. No canto da imagem, você pode ver um homem estuprando uma cabra. A autora, Adriana Varejão, falou sobre a obra, ressaltando que a ideia era trazer à tona práticas existentes e que as pessoas não falam sobre.

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Esta é uma obra adulta feita para adultos. A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas. Como artista, apenas busco jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do meu trabalho, a reflexão adulta.

Entretanto, a obra solta, numa exposição sobre sexualidade e diversidade, traz uma ideia errada. Mesmo o detalhe abaixo, de uma orgia que pode ser racista, sem contexto, só choca e passa a errônea ideia de que o objetivo é naturalizar as práticas.

Nada é livre de críticas, nem deve ser. Mas o acontecido com a exposição traz outro foco para o debate, que é: até que ponto isso é liberdade de expressão, e até que ponto pode prejudicar alguém? A resposta não é simples, mas simplesmente proibir uma exposição pode não ter sido a melhor solução.

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