#PrimeiroAssédio, MasterChef Jr: de quem é a culpa da sexualização infantil?Editorial

#PrimeiroAssédio, MasterChef Jr: de quem é a culpa da sexualização infantil?

O sucesso da versão brasileira do programa MasterChef, na Band, fez com que a emissora apostasse na versão “kids” da franquia, e nesta semana foi ao ar o primeiro episódio do MasterChef Júnior. O programa, que já virou o queridinho das redes sociais nas duas edições já apresentadas, viu as próprias redes sociais de uma maneira diferente e bastante doentia: algumas pessoas comentaram a “beleza” de uma participante de apenas 12 anos, mas com teor pedófilo. O assunto entrou em discussão sobre a pedofilia em si, exposição de crianças na mídia e internet, além de dar início à campanha O Primeiro Assédio.

Hoje não vamos detalhar o que originou toda esta discussão por motivos óbvios: não precisamos expor ainda mais a pequena participante alvo de comentários perturbadores, mas sim a campanha que levanta a bandeira de um caso que ainda insiste em aparecer na sociedade: do abuso, do assédio e da pedofilia. A própria Band divulgou comunicado rechaçando os comentários que, acredite, foram difíceis de ler. Ao mesmo tempo, mulheres foram às redes sociais para comentar os assédios que já sofreram em suas vidas.

O #PrimeiroAssédio e o MasterChef Jr

Através da hashtag #primeiroassedio, muitas garotas compartilharam a dor e sofrimento de terem sido abusadas, seja em palavras ou em atos físicos; e isso mostra a importância de se discutir casos como estes diariamente. Falta informação para que as pessoas entendam a gravidade de tais atos, falta conhecimento das formas de punição. Também não iremos rechear esta matéria com prints dos comentários deferidos à participante do MasterChef Júnior, porque até mesmo compartilhar o conteúdo pode ser considerado crime. Sim, o caso é mesmo grave.

A resposta das pessoas nas redes sociais, principalmente com a hashtag #primeiroassedio, veio rápida e forte; fruto de mulheres à frente do Think Olga, um grupo que discute teorias femininas e valorização da mulher. Tudo fica ainda mais importante depois que sabemos que muitos dos relatos escritos com a hashtag representam a primeira vez que tais mulheres falam sobre o que ocorreu com elas.

A dor de quem passa por um assédio é enorme e eu particularmente sei bem disso. São feridas carregadas para sempre, que demoram a ser cicatrizadas, e que vez ou outra voltam à tona. Apoio psicológico pode ajudar em casos assim, permitindo uma vida mais controlada e sem traumas; mas ter a força de abrir o coração e contar os próprios medos também é um passo importantíssimo.

Até agora foram mais de 30 mil tweets que usaram a hashtag da campanha, tweets que comprovam o chocante: os casos de assédio acontecem muitas vezes quando se é criança, e tais ataques vêm de pessoas que já tem idade suficiente para entenderem seus atos e as consequências de um crime.

E não para por aí; outros ataques e a ironia machista, sempre presentes

Ainda no MasterChef Júnior, outro participante tem passado por algo semelhante. Também não divulgaremos o nome para preservar a criança, mas digamos que muitos internautas foram até as redes sociais para atacar o que muitos chamariam de “criança viada“.

A expressão ganhou a internet anos antes, no dia das crianças, quando muitos homo e heterossexuais divulgavam suas próprias fotos onde cada um aparecia em uma situação denominada “afeminada”. A brincadeira ganhou vários adeptos, mas sempre com as próprias pessoas rindo de si mesmas, ainda que por trás de tudo possamos ver um tom pejorativo no joguinho.

masterchef 2

O participante mirim foi denominado uma criança viada, além de ser atacado por seu nome, considerado estranho por muitos. A sensação que temos é a de que muitas pessoas acham que a internet realmente é um lugar onde tudo pode ser dito e escrito. Muitos ainda não perceberam que brincadeiras tem limite e este limite bate na linha que separa o respeito da zoação.

Voltando à campanha Primeiro Assédio, alguns homens também usaram a hashtag para ironizar o caso, e criar mais brincadeiras sem graça. O cantor Roger foi um destes, aproveitando a “modinha” e distorcendo o objetivo principal da luta. E é sofrível ver que uma pessoa pública não consegue medir o limite dos seus próprios atos, perpetuando esta visão machista e assombrosa de muitos seres humanos.

primeiro assedio roger 1

ONGs pegam carona no “Primeiro Assédio”

Apesar de todos os desdobramentos negativos, algumas ONGs e órgãos aproveitaram o caso para reforçar suas campanhas. O Governo Federal e a Unicef foram alguns dos que se posicionaram positivamente. Vale lembrar que qualquer pessoa que se sinta ameaçada ou ofendida pode denunciar casos de assédio ou preconceito através de um BO, do site da Polícia Federal ou do Disque 100.

Que o caso do MasterChef Júnior permita ao debate uma vivacidade imponente. Que tudo isso sirva como lição: abuso sexual é mais comum do que se pensa, e está enraizado em nossa cultura, que ainda insiste em definir a virilidade de um homem através de suas abordagens muitas vezes desproporcionais. Não são todos, mas ainda são alguns, que destroem a vida de muitas pessoas por aí. Vamos debater o assunto, sim. Vamos debater até que todos entendam o tamanho do problema, ainda que vejamos hoje apenas a ponta do iceberg.

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