Pitacos: ‘Corra!’ que os racistas vêm aíCinema

Pitacos: ‘Corra!’ que os racistas vêm aí

‘Corra!’ (Get Out), EUA, 2017

Direção: Jordan Peele

Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams e Catherine Keener.

Pitaco d’A Gambiarra

Uma reflexão prévia sobre o contexto que envolve Corra!.

Os preconceitos são parte da gênese de qualquer sociedade. É impossível pensar a criação de valores e de uma cultura sem a determinação do que é certo ou errado, bom ou ruim, belo ou feio. Se existem tais imposições, aquilo que não se enquadra sofre julgamento, perseguição, exclusão, eliminação. Apesar dessa relação intrínseca entre preconceito e sociedade, houve muitos avanços quanto à percepção da necessidade de igualdade e de respeito às diferenças ao longo do tempo. Tornou-se cada vez mais urgente e disseminada a ideia de que é necessário combater os preconceitos.

A luta pelos direitos civis e em favor dos direitos humanos, bem como a revolução comportamental dos anos 1960, foram episódios seminais no avanço da transformação de mentalidades, fazendo nascer uma consciência coletiva que não mais aceita oficialmente o racismo ou a homofobia, por exemplo. A proliferação de um senso de combate ao preconceito, no entanto, trouxe sua contrapartida: alimentar as ideias discriminatórias daqueles que não acreditam em igualdade para todos.

Esses, com a vigilância por vezes excessiva e equivocada do politicamente correto, com a arraigada luta dos movimentos sociais e com o apoio a um discurso mais tolerante por parte da mídia e da imprensa, perceberam que seu discurso preconceituoso não cabia mais e engoliram o choro, manifestando-se em submundos virtuais das páginas que incitam o ódio na internet. O ovo da serpente, entretanto, continua a chocar, disfarçada de discurso progressista.

É a partir dessa reflexão que devemos analisar a surpreendente estreia na direção de Jordan Peele, o alucinado e tenso Corra!, em cartaz há quase duas semanas no Brasil.

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Família reunida e seus negros de estimação: desconforto e troca de cérebros.


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‘Corra!’: um grito contra o racismo

O filme foi um sucesso extraordinário em seu país de origem, os EUA. Custou a bagatela (para os padrões hollywoodianos) de 5 milhões de dólares e rendeu, até o momento, quase 180 milhões. O roteiro, assinado pelo próprio Jordan Peele, deixa clara a seguinte mensagem: o tal preconceito (no caso, racial), uma vez que intrínseco à sociedade (no caso, a estadunidense), pode ser dissimulado e disfarçado por receio do julgamento social, mas torna-se sub-repticiamente cada vez mais virulento. É na defesa desse discurso que o filme acerta o alvo, ao mesmo tempo em que peca pelo excesso.

Corra! tem uma história simples, a princípio. Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro, namora Rose (Allison Williams), moça branca. Eles vão passar o fim de semana na casa da família dela, em uma propriedade isolada. Os pais da garota parecem ser intelectuais liberais e tratam o rapaz com carinho e cordialidade. Porém, algo estranho e ameaçador paira no ar: olhares, desconfortos e o comportamento robótico dos empregados da casa começam a incomodar Chris, que aos poucos se percebe em uma armadilha.

Apesar de alguns tropeços, o filme é relevante e merece ser visto

A primeira metade do filme é disparadamente a melhor. A revelação gradual dos segredos que envolvem aquela família, culminada pela fatídica festa que os pais de Rose organizam no fim de semana, promove grande tensão (o espectador sente realmente vontade de gritar o título do filme para o protagonista) e desvela a hipocrisia vigente no comportamento daquele grupo de pessoas “brancas e bem-nascidas”. Peele, no entanto, não se contenta com o excelente material que coloca na tela e acaba se excedendo em situações que envolvem troca de corpos, cérebros e afins. Isso acaba comprometendo a verossimilhança e a proposta de reflexão inicial.

Muitos afirmam que esse terço final, em que se tem uma mistura de filme de Stanley Kubrick com Frankenstein, contém o melhor do filme por ser, na verdade, uma metáfora da falta de limites da história de opressão do branco sobre o negro. O improvável das situações, porém, pode tornar o filme risível em alguns momentos e isso parece incompatível em um filme de terror sobre racismo. Algumas cenas mais óbvias, como a da caixa de fotos comprometedoras deixada desleixadamente à mostra, confirmam que o roteiro do filme, apesar de instigante, não é infalível.

Apesar de seus excessos, Corra! representa um sopro de inovação no tratamento dado ao racismo no cinema, além de ser um eficiente thriller. Em seus melhores momentos, chega a servir de reflexão sobre a persistência do preconceito em nossa sociedade. Não é a obra-prima que alguns anunciaram, mas é relevante e merece ser visto.

 

 

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