Pitacos: ‘Alien: Covenant satisfaz’, mas não surpreendeCinema

Pitacos: ‘Alien: Covenant satisfaz’, mas não surpreende

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Michael Fassbender, estupendo, lidera o elenco de ‘Alien: Covenant’.

Em 1979, o diretor Ridley Scott, então quase um iniciante em longas-metragens, aproveitou-se da popularidade da ficção científica, embalada pelo estrondoso sucesso de filmes como Star Wars e Contatos imediatos de 3º grau, e subiu um degrau ao criar uma das sagas mais respeitadas da história do cinema com a obra-prima Alien: O oitavo passageiro. O filme inaugurou o gênero terror espacial e serviu de inspiração para inúmeras produções posteriores (o mais recente foi Vida, sobre o qual já escrevemos aqui).

A saga em si teve continuações capitaneadas por grandes diretores (Scott só voltou à direção em Prometheus, de 2012). Eles variaram entre o empolgante Aliens: O resgate (dirigido por James Cameron, em 1986), o melancólico Alien 3 (de David Fincher, em 1992) e o estranho Alien – ressurreição (comandado pelo francês Jean-Pierre Jeunet, de Amélie Poulain, em 1997).

Depois deste último filme, parecia que a fórmula havia se esgotado. A criatura clássica (cujo design foi criado pelo genial — e já falecido — H.R.Giger) apareceu em farofas caça-níqueis como Alien vs. Predador, de 2004, do famigerado diretor de Resident Evil, Paul W. Anderson. Até que Ridley Scott decidiu criar uma história de origem com Prometheus e abriu novas possibilidades para a saga, mesmo se tratando de uma produção irregular e anticlimática. É como continuação desse filme e prequel do Alien original que se situa este novo Alien: Covenant.


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‘Alien: Covenant’: um pouco de repetição e um pouco de criação

A trama do filme é uma variação do mesmo tema. Uma equipe de colonizadores espaciais, composta por casais e pelo androide Walter (Michael Fassbender, absoluto em cena em papel duplo), captura uma transmissão misteriosa e decide investigar. Isso leva o grupo ao planeta em que se desenrolaram os episódios do filme anterior. A partir daí, a espécie alienígena agressiva e mortal que todos conhecemos faz a festa. Enfim, nada de novo até aí. O que o esperto roteiro assinado por John Logan e Dante Harper acrescenta ao mais do mesmo, no entanto, é a grande sacada do filme.

No início da projeção, o androide David (novamente Fassbender), um dos sobreviventes da missão Prometheus, tem um diálogo de conotações existenciais com o cientista que o criou, e fica claro, a partir desse momento, que o autômato parece insatisfeito (e sente-se até mesmo injustiçado) por ser uma mera criatura. Esse imbróglio dá sinais do que, posteriormente, se tornará a parte mais interessante da produção: a reflexão sobre o afã de criar, e não apenas replicar, e as consequências da possibilidade que esse poder pode orquestrar sobre os seres humanos e até sobre os quase-humanos.

Personagens humanos não funcionam a contento

Nos quesitos suspense e ação, o filme cumpre bem seu papel. Mérito técnico de Scott, sem dúvida. No aspecto humano, no entanto, o filme padece de seu maior mal. Um dos grandes trunfos dos dois primeiros filmes da franquia é o carisma dos personagens. A inesquecível tenente Ripley de Sigourney Weaver, a garotinha Newt, o capitão Dallas e tantos outros ganharam a torcida da plateia. As inevitáveis mortes de muitos deles só aumentavam o pesar e o terror produzidos sobre o espectador.

Em Covenant, não há um personagem humano que realmente nos faça torcer para valer. A pouco conhecida Katherine Waterston, que esteve em Animais fantásticos e onde habitam, até se esforça na pele da subcomandante Daniels. No entanto, as inevitáveis comparações com a Ripley de Sigourney acabam diminuindo a força da personagem. Ou seja: os melhores personagens são os androides vividos por Michael Fassbender, que, por não terem vida orgânica, não são alvo de interesse do monstro. Isso compromete o impacto do filme. Não há terror quando não se torce pelos personagens ou quando a morte de alguns deles não provoca, mesmo que momentaneamente, uma espécie de sentimento de luto.

Felizmente, as boas ideias e a direção competente suplantam os erros e tornam Alien: Covenant uma obra bem mais completa que seu antecessor. Mas ainda muito distante da maestria do original, que ainda nos faz arrepiar ao lembrar do alerta que estampava o cartaz do filme:

No espaço, ninguém ouvirá seus gritos.

E esse senso de profundo terror, o novo bebê alien não possui.

 

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