Pitacos: ‘A Cabana’ não é um filme perfeito, mas emocionaCinema

Pitacos: ‘A Cabana’ não é um filme perfeito, mas emociona

‘A Cabana’ (The shack), EUA, 2017

Direção: Stuart Hazeldine

Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Radha Mitchell, Alice Braga, Avraham Aviv Alush

Sinopse rapidona

Em A Cabana, Mackenzie (Sam Worthington, bonitão e cada vez mais rico), um cristão titubeante e pai de família, tem uma vida aprazível até que uma tragédia o torna amargo e infeliz. Ele recebe uma mensagem, possivelmente enviada por Deus, para que o (a) encontre na cabana onde se consumou o motivo de sua angústia.

A partir daí, inicia-se um processo bem new age de autoperdão e cura.

Pitaco d’A Gambiarra

Poucas vezes na vida senti um prazer tão sádico quanto o da última quinta-feira, dia 6, enquanto me dirigia à sessão de estreia da versão cinematográfica do best-seller A cabana, de William P. Young. Essa sensação vinha de uma vontade mal-intencionada: poder iniciar os trabalhos desta nova coluna DESTRUINDO um filme no qual, eu tinha certeza, seria fácil de bater. E ainda iria polemizar com os milhares de fãs do livro, o que é sempre uma opção para fazer repercutir uma opinião.

Afinal, se a obra literária já era ruim de doer, então o que esperar da versão para o cinema, geralmente incapaz de manter o nível de sua fonte original? Ao que parece, no entanto, a ideia de que quando não há para onde descer, só resta subir, cabe perfeitamente para a situação em questão. A cabana, filme dirigido por Stuart Hazeldine, é muito melhor que sua inspiração literária.

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Antes de mais nada, é importante diferenciar este de outros filmes de temática cristã que vêm pipocando no cinema recentemente. Filmes como o execrável Deus não está morto, produção de 2014 dirigida por um tal Harold Cronk, fizeram sucesso (especialmente entre os cristãos protestantes) se utilizando de um discurso moralista e preconceituoso, que basicamente diz que aquele que não é cristão é mau, violento, intolerante. Um petardo de proselitismo doutrinário disfarçado de cinema de baixíssima qualidade. Abominável. Asqueroso.

Aí começam as diferenças entre essas meras peças publicitárias e A cabana. A ideia de uma religiosidade ecumênica, sem regras e julgamentos, é disseminada e reforçada ao longo de todo o filme.

Elenco surpreende em ‘A Cabana’

O charme do elenco é, sem dúvida, outro destaque. É bem verdade que a simpaticíssima Octavia Spencer (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Histórias cruzadas e indicada na última edição na mesma categoria, por Estrelas além do tempo) parece ter ligado o piloto automático e faz as mesmas caras e bocas de ternura e compreensão, usando seu eterno meio sorriso e os olhos enormes e expressivos.

O restante do elenco, no entanto, parece bem comprometido em entregar uma atuação sincera. Isso ocorre especialmente com Sam Worthington. O astro do megassucesso Avatar e atual ator mais bem pago do mundo convence na maioria do tempo, principalmente nos momentos em que seu personagem, Mackenzie, enfrenta a dor da perda de sua filha caçula, cerne dramático da trama e situação que põe à prova a fé do protagonista. Alice Braga também impressiona em um papel pequeno, mas marcante. E o israelense Avraham Aviv Alush esbanja carisma como um Jesus inesperadamente descolado.

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Obviamente, o filme tem falhas. A trilha sonora melosa (as canções são um suplício), os efeitos especiais, a direção de arte e a fotografia cafona — que não fogem da leitura estereotipada do que seria o paraíso — e o roteiro que oscila entre soluções menos óbvias a outras excessivamente previsíveis e piegas mostram que não se está, em hipótese alguma, diante de um grande filme. Também é necessário fazer um esforço bem-intencionado para aceitar a facilidade como situações intrincadas ou absurdas são recebidas com naturalidade por alguns personagens.

Apesar das críticas, filme emociona

O leitor, então, se pergunta: por que esse criticozinho mequetrefe começou esta resenha elogiando o filme? A resposta não é tão simples, mas talvez possa se resumir em uma frase não tão objetiva: o fato é que o filme FUNCIONA. Pelo menos para mim, funcionou. Chorei, questionei as vezes em que culpei os outros por coisas que me aconteceram, enfim, me deixei envolver pela mensagem. O que é particularmente interessante, porque o livro só me trouxe bocejos e uma sensação incômoda de estar sendo enganado e manipulado.

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No entanto, a imprensa não tem sido tão dócil em relação ao filme. Pode ser porque a maioria dos críticos realmente não tenha gostado. Porém, assim como eu fui armado até os dentes para o cinema, muitos podem ter tido a mesma postura e resistido a se permitirem ver os aspectos eficientes da obra. Crítico adora falar mal de filme com mensagem espiritualista, principalmente se for um produto comercial e não uma obra-cabeça de Goddard (Je vous salue, Marie), Scorcese (A última tentação de Cristo) ou Pasolini (O evangelho segundo São Mateus).

É claro que A Cabana não tem o escopo artístico de nenhuma dessas obras (apesar da chatice que é o filme do Goddard). No entanto, caso o espectador se desarme, pode conseguir passar duas horas e pouco em um estado de semitorpor crítico e aproveitar a viagem.

É filmão? Não. Mas os esforços de elenco e produção para tirar leite de pedra são louváveis e até relativamente bem-sucedidos. Por precaução, leve um lencinho: eu tive que enxugar lágrimas na camiseta.

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