Oscar 2016: por que o racismo contra branco está em pauta?Editorial

Oscar 2016: por que o racismo contra branco está em pauta?

Voltemos a falar sobre racismo. Principalmente depois que a atriz Charlotte Rampling (Melancholia, Dexter) se pronunciou contrária ao boicote ao Oscar, por conta da não nomeação de negros no final das indicações. O comentário de Charlotte, que diz que tal boicote seria racismo contra brancos, ganhou as principais manchetes de jornais do mundo todo, e colocou ainda mais lenha na fogueira.

Antes de mais nada, precisamos lembrar que toda esta discussão é válida, principalmente porque fomenta o debate sobre o tema, e mostra a todos que preconceito ainda está longe de sumir do mapa. Apesar disso, vale salientar também que mesmo válido, o debate precisa antes de mais nada ouvir ambos os lados.

Não quero com isso levantar minha opinião, mas em tempo de internet, onde todos se escondem atrás de telas e teclados, opiniões extremistas e ofensivas sempre aparecem, de ambos os lados. Para validar uma discussão é preciso um mínimo de respeito e outro mínimo de liberdade, desde que ambos não firam a integridade de outros.

Charlotte Rampling

Charlotte Rampling


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#OscarStillSoWhite: cotas, racismo contra brancos e o início de tudo

Introduzi o assunto acima com o maior cuidado possível porque debater tal tema, como eu disse, é crucial, mas perigoso. A questão envolve séculos de preconceitos e o enraizamento destes mesmos preconceitos na cultura de diversos países, só para ficar no principal problema.

É inegável que negros sofreram muito, séculos atrás, seja pela escravatura, seja pelo menor poder se comparado a um branco. A escravidão se foi em muitos lugares, mas os preconceitos e o menosprezo continuam.

Se pararmos para pensar, a luta por direitos iguais, ou no nosso caso (mais polêmico), as cotas para negros em universidades, ainda persiste; e tudo voltou à tona nas últimas semanas, depois que a Academia divulgou a lista dos finalistas ao Oscar 2016.

Atores, atrizes, diretores e movimentos negros ficaram surpresos com a ausência de indicações de negros. Spike Lee, Jada Pinkett Smith e Will Smith anunciaram um boicote à cerimônia, e foram apoiados por George Clooney e Mark Ruffalo.

Lee foi mais longe e exigiu cotas para negros nas próximas escolhas. Algo absurdo? Algo necessário? Bem, cada um tem direito a opinar.

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Mark Ruffalo

Até onde as cotas são válidas?

O pronunciamento de Lee sobre cotas me fez lembrar uma conversa que eu tive com um amigo, negro, sobre as cotas brasileiras em universidades. Na ocasião, debatíamos sobre outro caso de racismo, levantado por internautas quando descobriram que o Big Brother Brasil havia colocado um boneco afro como esponja na cozinha. O cabelo do boneco seria usado para ariar panelas.

Falamos do caso aqui n’A Gambiarra, mas resolvi comentar com esse meu amigo. Ele me contou histórias de preconceito que ele mesmo sofreu, e eu lembrei de novo de outra história, a de Caio, namorado de Jout Jout Prazer. Também falei sobre isso no texto do BBB, e você pode ler tudo no link logo no início desta matéria.

Durante a conversa, debatemos sobre as cotas para negros em universidades. Eu disse para ele que tenho medo de opinar em casos assim, porque eu não sofri preconceito na vida, eu não sei o que é sofrer ou perder vagas por uma gama de exemplos racistas que se perpetuam por séculos.

Mas vamos lá: eu sou a favor de cotas para negros em universidades. Não por serem negros, e nem apenas para eles. Mas acredito que por trás das cotas (sem distinção racial), existe a ideia de que os merecedores são, na maioria mais pobres e têm menos oportunidades de estudo de qualidade, afinal, sabemos bem como a educação funciona no Brasil.

Eu sou, na verdade, a favor de cotas para aqueles que independente de cor, credo, etnia, nunca tiveram condição de atingir tal objetivo; no caso, acesso à universidade. Posso estar falando besteira, mas acho que o buraco é mais embaixo e os tais séculos de preconceito prejudicam até hoje negros. Como prejudicam índios também; e por aí vai.

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Spike Lee

Mudanças à vista; pelo menos no Oscar

Depois de todo o debate por cotas para negros no Oscar, a Academia resolveu se pronunciar e divulgou mudanças para o próximo ano. Em linhas gerais, eles querem aumentar a representatividade de minorias (não gosto desta palavra), como negros e mulheres no conselho da administração da Academia.

Além disso, os votos dos acadêmicos também ganharam alterações: os cerca de 7 mil membros não terão mais voto perpétuo. Agora, cada filiado pode votar por dez anos, desde sua filiação. Estes dez anos podem ser prolongados por mais uma década, desde que os membros se mantenham ativos, e continuem trabalhando na indústria cinematográfica. Apenas quem tem mais de 30 anos de carreira pode votar perpetuamente.

A ideia foi lançada por Cheryl Boone Isaacs, uma das representantes do conselho da Academia, negra e mulher. Ela se disse desapontada com a lista de indicados por não conter negros pelo segundo ano consecutivo. Cheryl também se comprometeu a nomear uma mulher negra para trazer mais mulheres, negros e minorias à Academia.

Voltando às cotas, eu acho que elas não funcionam no Oscar, pelo menos não da forma que Lee propôs. Ao invés disso, acho mais válido a ideia de Cheryl, que atinge a base de toda a cadeia. Como assim? Explico abaixo:

Cheryl Boones Isaacs

Cheryl Boone Isaacs

O outro lado do discurso de Charlotte Rampling

Na mesma entrevista em que a atriz veterana disse achar que tudo isso era racismo contra brancos, Rampling comentou algo que deve sim ser levando em conta:

É difícil saber se é o caso, mas pode ser que os atores negros não merecessem estar na reta final. […] Por que classificar as pessoas? Vivemos em países onde somos mais ou menos aceitos… Mas sempre haverá problemas e [gente que diga] ‘ele é menos bonito’, ‘ele é negro demais’, ‘o outro é branco demais’… Por isso é preciso criar milhares de pequenas minorias em todo canto?

Eu concordo com isso, e acho que as palavras vão de encontro ao proposto por Boone. Não adianta dar cotas para indicações. O que se mostra válido é fomentar e aumentar as oportunidades para que mais membros negros votem, e outros atores e diretores iniciantes negros, índios, de qualquer etnia, mulheres, homossexuais, todos tenham mais chances de iniciar sua carreira e mostrar seu trabalho.

Lupita Nyong’o não ganhou um Oscar por cota, mas sim pelo seu talento e seu trabalho exemplar. O que a Academia e o cinema precisam é de mais atores e diretores negros com mais visibilidade, tendo direitos iguais para concorrerem nas indicações. Mas calma, porque não é só isso.

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Lupita Nyong’o

Renovando a estrutura

Como bem explicado pelo jornalista Marcel Plasse no blog Pipoca Modernaas novas ideias da Academia querem sacudir a atual base de seus membros. Marcel chamou a atenção para algo curioso: de acordo com relatos da mídia especializada, 94% dos membros são brancos, 77% homens, e a média de idade é de 60 anos.

Os votos finais então representariam o gosto de homens brancos idosos, pessoas que geralmente não toleram alterações significativas ao conservadorismo velado que sempre permeia as indicações finais.

Juntando isso à fala de Rampling e ao desejo de mudança de Cheryl, temos o que a Academia e as minorias precisam: mais representatividade na base da pirâmide, para que ela avance assim cada vez mais fortalecida rumo às indicações finais. É algo, de certa forma, demorado, e os próprios envolvidos nas mudanças afirmam que elas se concluirão apenas a partir de 2020. Mas é um começo.

E mesmo com ou sem mimimi, com ou sem legitimidade nas acusações ou na ideia de racismo contra brancos, algo está sendo feito. Levantaram a densa camada da poeira que estava acima de muito preconceito perpetuado nos últimos séculos, principalmente por conta dos movimentos descontentes às nomeações de 2016.

Halle Berry

Halle Berry

O mundo continua sim em dívida com negros. Mas o mundo também precisa estar ciente de que não basta atender os pedidos dos desfavorecidos apenas para tentar sanar as críticas. Uma mudança sólida de verdade só surte efeito quando atinge a raiz de todo o problema, e não os floreios de gente branca votando em gente branca.

Afinal, todos nós sabemos que belas flores de uma árvore não necessariamente provam que tudo vai bem caule adentro. É preciso, antes de mais nada, nutrir as raízes para que no futuro, colhamos frutos de qualidade, independente da espécie em questão. E na boa, todos somos da mesma “espécie”.

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