Caso Feliciano: precisamos separar Política de Igreja agora mesmoEditorial

Caso Feliciano: precisamos separar Política de Igreja agora mesmo

O caso Marco Feliciano tomou as manchetes dos jornais de todo o país. Ainda que um pouco ofuscado pelo grande brilho das Olimpíadas, a acusação de estupro também fez barulho e levantou alguns pontos que precisamos questionar.

Antes de mais nada, este artigo não tem a pretensão de ser acusatório. A situação política do País está um caos, em todas as esferas; e este caso do Feliciano é também político. O que ninguém precisa agora é de ânimos exaltados, críticas infundadas ou acusações pré-estabelecidas, mesmo que Feliciano por si só pareça cavar sua própria cova de hipocrisia.

Feliciano tem uma reputação de comentários negativos e discriminatórios? Tem. E agora temos prova de que ele abusou sexualmente de uma jovem. O depoimento da jornalista agredida entra aqui, e a justiça, esperamos, se encarregará do resto. Não esperamos nada além da verdade. O foco também não será o chefe de gabinete de Feliciano. Ele foi encaminhado à delegacia para prestar depoimentos e isso também corre na justiça.

Muito embora fosse necessário falar extensivamente sobre a enorme atrocidade que a hipocrisia desses religiosos foi capaz de causar, vamos focar no questão macro. O que queremos aqui é que você veja o grande problema que é juntar Política e Religião.

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Caso Feliciano: quando Igreja e Política se juntam

Eu, particularmente, sou daqueles que não procuram criticar quando não sabem de algo. Eu sequer sei qual a Igreja do Feliciano. Mas a nossa pauta hoje é outra e apareceu justamente porque essa história de abuso estourou na mídia brasileira.

Precisamos falar de Religião e Política. Precisamos desmitificar alguns pontos. Estas duas vertentes são como água e óleo, não se misturam. Podemos sacudir um vidro com os dois líquidos, eles parecerão estar juntos, mas minutos depois se separarão de novo.

Com a Igreja e a Política acontece a mesma coisa. Ok, não precisamos generalizar nada. Tudo na vida tem seu lado bom e ruim. Se pessoas acreditam em seus deuses, se pessoas doam seu dinheiro para a Igreja, isso é um problema individual de cada um.

A situação começa a ficar insustentável quando a Igreja (ou melhor, uma parte podre dela) resolve se inserir na Política para obter benefícios e poder perante a legislação.

Ora, não é certo Igreja ter isenção fiscal. Isso é um fato. Você pode ter seus argumentos, eu tenho os meus. Mas se você beneficia apenas uma parcela da sociedade, tem que dar um bom motivo para isso; e, claro, saber se toda a sociedade concorda.

Por mais que tenhamos aprendido a ir para as ruas (mesmo que por motivos tortos e fúteis na maioria das vezes), ainda não percebemos que temos sim um poder bem maior que bater panela. Então antes de criticar qualquer atuação de parlamentar, pense que foi você que o colocou lá e que ele precisa fazer coisas que te beneficiem.

Ele é seu representante, não representante de uma Igreja. Veja aqui que Igreja e grupos de religiosos são coisas bem diferentes. Um político pode sim representar um grupo de religiosos, mas não pode querer representar uma instituição.

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Interesses de quem?

Mas aí temos outro problema. Alguns grupos religiosos e alguns políticos religiosos passaram a fortalecer a chamada Bancada Evangélica. Mas não se engane, a culpa não é da religião Evangélica, mas sim de pessoas que se acham no direito de colocar seus pensamentos à frente do pensamento público.

Você não pode, por exemplo, querer proibir relacionamentos homossexuais ou punir quem discriminaliza o aborto só por conta de suas ideologias religiosas. Você representa o povo como um todo e tem que ter isso em mente.

Se você quer algo que limita os direitos alheios, temos um grande problema. E essa é uma das principais questões: você insere sua Religião dentro da Política e nem preciso dizer que nosso país é laico.

Então temos que aprender a separar bem estas duas coisas. O que você faz na sua vida, os cultos que você frequenta, as orações ideológico-teocráticas que você tem, são suas; unicamente suas. Agora, se você entra na política, tem que pensar um pouco mais fora da caixa, porque seus projetos não devem ser válidos apenas para seus semelhantes.

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A hiprocisia no reino de Deus

Quando eu falo “reino de Deus”, me refiro a todas as religiões. Como também disse lá em cima, não podemos generalizar. Existe lado bom e ruim em tudo. Mas assusta ver tanto lado negativo aparecendo a todo momento.

De acordo com as acusações contra Feliciano, ele ofereceu cargo e dinheiro para uma jovem caso ela topasse ser sua amante. Mais uma vez, enfatizo, não quero fazer julgamento de valores. Até porque a justiça (não a divina) se encarrega disso.

Mas quero te alertar que existem inúmeros outros “Felicianos” que de fato aliciam menores de idade, mulheres, homens. Nossa política está podre em todos os lugares e muitos políticos usam do seu poder para conseguir o que querem.

É tudo uma grande hipocrisia, gente com ficha mais suja que pau de galinheiro tentando ditar regra e criminalizar outras pessoas. É hipocrisia, por exemplo, um impeachement confuso porque nenhum ficha suja (ou nenhuma pessoa corrupta, em distintos graus, na nossa sociedade) tem poder de opinar sobre algo tão subjetivo como trechos da nossa Constituição.

Pedalada fiscal é crime.
Não é crime.
É crime.
Não é crime.
Tira casaco.
Bota casaco.

E existe muita gente que se esconde atrás de religião para se mostrar perfeito quando na verdade está longe disso. Esse também é um grave problema da nossa sociedade moderna.

Fazemos tantas maldades, tanta coisa errada que isso já está impregnado na nossa rotina. Aí temos a ideia de entrar em uma religião para aliviar nossa culpa interior, quando ela é insuportável.

Na essência, continuamos a mesma pessoa. Na cabeça, a ideia infundada de que uma adoração a Deus vai nos fazer melhor.

Por mais Política e menos Religião

Enquanto a guerra entre Feliciano e a jornalista que o acusou de estupro continua, com versões de ambos aparecendo toda hora, fica claro que o momento deve ser de reflexão.

Até que ponto meus interesses e ideologias pessoais estão interferindo nos interesses e ideologias do outro? Quem eu escolho para me representar? Eu posso querer que um pastor tenha poder político justamente em um país onde a Política nunca foi levada a sério? De acordo com os meus atos, EU posso ser levado a sério?

Que essas perguntas abram a mente de todos e possamos ver tudo com clareza, pensando mais no outro do que em nós mesmos. Só quando deixarmos nosso egoísmo um pouco de lado poderemos, de fato, ter uma Política respeitosa e justa para todos.

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