Recatada e domesticada: o padrão de mulher tolerado na política brasileiraEditorial

Recatada e domesticada: o padrão de mulher tolerado na política brasileira

Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar” é o título da matéria que a revista VEJA publicou esta semana sobre a esposa do vice-presidente Michel Temer. Eleita não por votos, mas pela maioria que está no poder como o padrão de mulher a ser seguido, Marcela Temer representa o tipo de mulher que é tolerada na política.

A vice-primeira-dama, como descreve a matéria, “chama a atenção pela beleza”, gosta de vestidos “na altura do joelho” e é mais nova que o marido, que a mima com jantares caros e apelidos carinhosos. E por tudo isso ela é uma mulher de sorte. O desfecho da matéria é um poema de Temer com conteúdo erótico que sugestiona ser sobre a esposa. E a jornalista arremata: “Michel Temer é um homem de sorte”.


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Recatada e do lar: as qualidades da mulher perfeita para a política brasileira

Opostas à imagem da mulher perfeita de Marcela Temer estão as imagens das outras mulheres, não contempladas no texto. Ou melhor, excluídas. Mulheres que não têm a sorte de ter maridos que resolvam tudo por elas enquanto estão “no lar” cuidando das coisas que lhes cabem. Mulheres que militam, que vão às ruas, que protestam, que não se calam, que se expõem, que fazem textão. Mulheres que não ficam nos bastidores, mas que são deputadas, prefeitas, ativistas e presidenta da República. Mulheres que são totalmente o contrário de Marcela Temer, cujo mérito de estrelar na revista é exclusivamente ser esposa do marido.

Assim que li o poema erótico de Temer, lembrei do artigo “Dilma e o sexo”, que João Luiz Vieira publicou ano passado na Época. No texto, o jornalista credita as falhas do governo Dilma à sexualidade da presidenta; ou melhor, à ausência dela: “Será que Dilma devaneia, sente falta de alguém para preencher a solidão que o poder provoca em noites insones? […] Dilma, se fosse seu amigo lhe diria: erotize-se”.

Coube à população a tarefa de sexualizar Dilma Rouseff?

A tese principal da matéria é que Dilma não soube erotizar seu eleitorado porque ela não é uma mulher que desperta desejo. Não da mesma forma que Marta Suplicy, que é política, mas também sexóloga, com quem é comparada no texto. Também não da mesma forma que Jane Fonda, ativista de esquerda, que com quase 80 anos anos é entusiasta dos exercícios físicos.

Para João Luiz Vieira, a sexualidade de Dilma foi subtraída pelo poder. É aí que, segundo ele, Dilma errou: ao não ser “feminina”. Pelo que ele e a sociedade acredita ser feminino: a mulher “do lar”, recatada, “que chama a atenção pela beleza”, que desperta o erotismo e é casada. Fora desse padrão, não é aquilo que se espera do “ser mulher”. Como lembra o jornalista, Dilma usa terninhos e é divorciada.

Sobre ser mulher em uma maioria conservadora

Dilma é a autoridade máxima do governo, por isso é o principal alvo político. E também é mulher, o que facilita ataques pessoais, porque ainda é fácil humilhar uma mulher. Violência, abuso e menosprezo são comportamentos covardes e criminosos contra as mulheres, mas ferramentas bastante eficazes para a manutenção de privilégios masculinos em nossa sociedade. Na política brasileira, as investidas misóginas estão às claras.

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Nossos representantes políticos são, em sua maioria, homens brancos, heterossexuais, elitizados e fundamentalistas. As justificativas dos votos no processo de abertura do impeachment no último domingo, 18, deixaram visíveis para a população brasileira que a preocupação de grande parte dos deputados é garantir seus interesses políticos, econômicos e morais.

A conservação de uma ordem que não quebre o conforto dessa parte privilegiada é essencial. E a retomada de poder por meio de um golpe de Estado está sendo arquitetada e amenizada, em grande parte, na construção da imagem de uma líder fraca porque é mulher. Algo já muito usado em empresas e corporações para desvalorizar e desacreditar mulheres que buscam ascensão profissional, inclusive a cargos gestores. E muitas vezes com as desculpas de que menstruamos, temos filhos e TPM.

O caso IstoÉ e a “histeria feminina”

No início do mês, a IstoÉ dedicou a matéria de capa para criar a imagem de Dilma como uma mulher entregue às emoções: agressiva e incapaz de responder pelos seus atos – que dirá os rumos do Brasil. Exatamente o oposto de recatada. Esse tipo de suposição fere as mulheres, que cotidianamente são tachadas de histéricas e descontroladas pelo senso comum.

E não é preciso ser presidenta da República para receber esse tipo de tratamento. Está para nascer uma mulher que nunca, em nenhum momento, tenha sido chamado de louca. A publicidade também se aproveita dessa ideia para vender a imagem da mulher neurótica – seja por limpeza, a famosa “neura”, por ciúme, ou a louca por compras etc.

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“Dilma, a louca”

A luta das mulheres é deslegitimada por critérios de beleza, sexualidade e autonomia. A sociedade dita que podemos ter direito de pensar, falar e agir como mulheres somente a partir do momento em que somos aceitas como mulheres. Para isso precisamos ter belezas padronizadas, ser recatadas e domesticadas. Mulheres que saibam erotizar e serem erotizadas.

E precisamos ser perfeitas. É aquela máxima: dama na sociedade e puta na cama. E na cama de um homem só, assim como Marcela Temer que, como a matéria faz questão de dizer, casou-se com seu primeiro namorado que lhe dedica poemas. E que fiquemos de preferência à sombra dele: que sejamos vice, e não presidenta. Que sejamos “primeira-dama do lar”.

Essas publicações que servem a uma elite política pregam características de uma mulher tolerada na política que, sem sombra de dúvidas, anulam todas as nossas individualidades. Nosso jeito de nos vestir, de falar, de gostar, de escolher, de querer mudar os rumos da história. Na verdade, todas as escolhas das mulheres deveriam ser apoiadas e defendidas politicamente. Porque, afinal de contas, somos e nunca fomos tão plurais.

Deixar que nos façam desconfiar da nossa própria razão é o objetivo da elite política e de quem ela serve. Para que deixemos o futuro de nosso país e das nossas vidas nas mãos de quem acredita que só eles têm razões para continuar garantindo seus próprios interesses.

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