Manifestação ou Carnaval?Editorial

Manifestação ou Carnaval?

Virou Carnaval. Finalmente a política virou Carnaval. E não estou falando (apenas) da área VIP criada na manifestação deste 13/03 em São Paulo, mas de inúmeros outros indícios que teimam em mascarar o real motivo de pessoas irem às ruas protestar contra o que querem.

Antes de mais nada, valem dois pontos distintos aqui. O primeiro deles, mais pessoal: eu não vou sair para as ruas porque infelizmente, isso não resolve o problema, que é grande demais e demanda bem mais tempo para ser resolvido. E aqui falo de décadas, não meses ou anos, como muitos querem ou acham que será.

O segundo ponto diz respeito à legitimidade de atos como o acontecido domingo. Respeito quem vai às ruas, apesar de eu não fazer o mesmo. Respeito porém poucas pessoas que fazem isso de verdade, com desejo de mudança, e não para “lutar” de forma rasa contra o “mal” que destroça o país.


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Foto: Agência Brasil

Carnaval fora de época ou manifestação “legítima”?

Dito isso, vamos ao Carnaval de fato. Como noticiado pela BBC Brasil, a manifestação na Paulista teve, entre outras coisas, irreverência, abadás, área VIP, canhões de luzes, fumaças coloridas, ritmistas e cover do Bon Jovi. Nada contra a elite protestando, mas no meu ponto de vista, toda a festa feita ali foge do real motivo que leva(riam) mais milhões às ruas.

Elite pode protestar? Pode, claro. Mas eu acho que a maioria ali não conhece a realidade do país a ponto de entender como tudo funciona. Na verdade brasileiro nenhum consegue entender muito bem de política. Desde que Brasil é Brasil o povo marginalizou a política como um todo.

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Foto: O Financista

E como eu enxergo tudo isso? Eu, EU vejo isso como a principal raiz do problema. Nunca fomos politizados, e de certa forma, voluntaria ou involuntariamente, deixamos que outras pessoas fizessem isso. E o que acontece quando os gatos saem? Isso mesmo, os ratos fazem a festa.

Para mim, é basicamente o que acontece. Como, por décadas, transferimos nossa politização para os políticos, e como nunca cobramos resultados, eles foram ganhando espaço por conta própria, dominando tudo o que querem com uma falsa ideia de que faziam isso pelo povo.

Sem contar aqui que somos nós mesmos que elegemos e reelegemos os políticos, muitas vezes errados. Tanto é que hoje sinônimo de político é corrupção. Tanto é que, mesmo investigados, muitos políticos voltam a se reeleger. Tanto é que Collor está aí de novo, mesmo tendo sido destituído da presidência por um Impeachment, o mesmo que querem usar contra Dilma.

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

É festa!

Voltando à ala VIP da Av. Paulista, uma coisa me chamou a atenção. Entre abadás e ritmistas de Escola de Samba, um trio elétrico servia como QG de gente “importante”, e foi um dos lugares com acesso bloqueado a todo mundo. Nem vou discorrer do absurdo que é gente lutando por liberdade de expressão e democracia em um evento que tem área VIP.

Dentro deste trio elétrico, próximo a um painel para fotos com inúmeras logomarcas do Movimento Brasil Livre, uma mulher vendia cupcakes com ilustrações do japa da PF ou a estrela do PT partida ao meio. Segundo ela, eles não eram vendidos:

Pedimos uma doação de R$ 20 por bolinho. O cupcake em si é grátis.

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

Não, minha filha. Se você fala que o cupcake é grátis, ele é gratis. Mas se você coloca “uma doação de R$ 20 por bolinho“, aí você está agindo da mesma forma que muitos daqueles que você está tentando combater na manifestação. Se eu quiser um bolinho e não “doar” nada, você me dá mesmo assim? Imagino que o ambiente ficaria meio constrangedor em casos como este.

Tinham também os abadás laranjas, com uma caricatura de Dilma e os dizeres “Bloco Fora Dilma“. Cada um se manifesta de qualquer forma, mas muito me chama a atenção esse empenho todo para ir às ruas, quando o mesmo empenho deveria ser feito em frente às urnas. E não é clichê; é verdade.

Quem criou os abadás foi o Solidariedade. Um partido político. Segundo David Martins de Carvalho, presidente do partido em SP, os abadás não seriam a carnavalização do evento, mas uma forma de levar alegria e bom humor.

O povo gosta, olha aí.

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

Foto: Ricardo Senra / BBC Brasil

Alegorias

Fico imaginando até que ponto essa grandiosidade de adereços legitima a manifestação. Afinal, é coerente gastar algumas dezenas de milhares de Reais com abadás, ritmistas, bonecos infláveis e até pedalinhos (sim, compraram pedalinho para transformar em alegoria)? Foi isso que aconteceu: dezenas de milhares de Reais em uma manifestação que prega, curiosamente, o fim do gasto desenfreado do dinheiro público.

Você está errado em dizer que pagou 20 Reais em uma camiseta, 10 em um boneco inflável de miniatura do Lula ou da Dilma para protestar contra os altos gastos públicos. Você não está fazendo isso certo. Uma coisa é comprar guache verde e amarela para pintar o rosto; outra é fazer da manifestação um grande Carnaval e um mercado aberto.

Ok, pode ter sido tudo feito para chamar a atenção. Mas lembrem que nas Diretas Já a lembrança que todos têm não são de bonecos enormes ou grandes alegorias. Aliás, eu nem sei se eles foram usadas naquela época.

O que me tira do sério em manifestações modernas é justamente essa alegorização de tudo. Em um mundo onde a rapidez da internet e a grandiosidade de tudo chamam a atenção, as manifestações não se tornaram nada mais que uma vitrine de classes para alimentar o ego de gente que se acha politizada sem ser.

Foto: Época

Foto: Época

Dois pesos, duas medidas

Enquanto a roubalheira rola solta, tem gente pagando aluguel do mesmo trio elétrico usado por Ivete Sangalo em manifestações. Isso aconteceu, obviamente, em São Paulo. O grupo Revoltados Online esbanjou dinheiro (cerca de R$ 50.000) para ter o mimo nas ruas. Segundo Marcello Reis, fundador do Revoltados Online:

É uma mansão sobre rodas. Tem elevador, ar condicionado, dois telões e as caixas de som mais potentes do Brasil.

Vocês conseguem ver a discrepância de tudo como eu vejo depois dessa frase?

Prestem atenção: todos estamos como baratas tontas, gritando e correndo de um lado para o outro achando que seremos ouvidos. Podemos até estar sendo ouvidos, mas não adianta. Vai acontecer o mesmo que aconteceu em 2013: todos foram para as ruas, fizeram barulho até o Gigante adormecer de novo. E possivelmente você nem lembra o motivo que nos levou à manifestação naquele ano.

Pode acontecer o mesmo agora: caso Dilma seja expurgada do poder, vai resolver? Não, não vai. Aliás, transferir a culpa de toda a classe política, criada por décadas, para uma única mulher não resolve e nem alivia o problema.

Podem vir novas eleições? Podem. Vai resolver? Não, não vai. Esse ano votaremos para prefeitos e vereadores, e possivelmente vai acontecer a mesma coisa que acontece de dois em dois anos: os mesmos políticos de sempre pedindo voto do povo para representar o povo na política, teoricamente.

Podem gritar, ir às ruas novamente, bater panela nas sacadas, xingar presidente e ex-presidente? Cada um faz o que acha certo, respeitadas algumas limitações, claro. Vai resolver? Não, não vai.

Divulgação / YouTube

Divulgação / YouTube

Não vai resolver em nada porque são dois pesos e duas medidas: é gente sendo corrupta todo dia em pequenas situações bradando aos quatro cantos que quer destruir a corrupção na política. É gente que acha que gritar em uma manifestação alivia seu sentimento de culpa por também realizar atos corruptos no cotidiano.

O Carnaval que criaram pode fazer barulho, mas possivelmente não resolverá nada; e infelizmente nas próximas eleições presidenciais, continuaremos votando em corruptos escondidos sem sequer nos preocuparmos com o resultado disso.

Vamos lembrar que o Carnaval já passou. Que área VIP só segrega ainda mais uma população cada vez mais dividida pelos próprios políticos. Se o próprio Lula está incitando apoio popular neste momento de crise, uma carnavalização de manifestações só faz o mesmo, alimentando a fogueira do ódio entre pobres e ricos.

Afinal, foi isso que sempre aconteceu: pobres e ricos em embates. Nas ruas ou na política, onde “representantes” do povo ficam ricos e não representam o povo. O Brasil está perdido e transformar tudo em evento pode se mostrar incrível agora, mas será catastrófico no final.

Revoltados Online

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