Love Wins: não se trata de ser, mas de celebrar o amorEditorial

Love Wins: não se trata de ser, mas de celebrar o amor

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É interessante notar como os paradigmas das sociedades mudam ao longo da história. Hoje, 26 de junho de 2015, o casamento gay foi legalizado em todos os 50 estados dos Estados Unidos, por decisão da Suprema Corte de lá, que funciona como o Superior Tribunal Federal (STF) aqui no Brasil. A alguns pode parecer pouco, mas a decisão tem caráter histórico e alguns elementos ajudarão e explicar por quê e a razão da frase Love Wins, que ficará por um bom tempo na memória.

As questões sociais surgem de maneira cíclica e modificam as concepções de sociedades a respeito de determinados assuntos. O feminismo, por exemplo, é um grande símbolo de luta social por igualdade de direitos, posto que busca a equidade jurídica e social para as mulheres, da qual muitas mulheres ainda são privadas. Há 50 anos atrás, achava-se um absurdo uma mulher trabalhar. Hoje, ainda se acha quem diga que o casamento homoafetivo é uma aberração.

A ideia está bem arraigada. Desde pequeno, ouvia dentro da família, mesmo, as tradicionais chacotas a respeito da homoafetividade. Aquele tio que tem “fama de boiola” ou a prima distante que “parece sapatão” eram personagens bastante estereotipados e completamente à margem da tão idolatrada sobriedade que carregava o conceito de família fundamental: o pai, responsável por trabalhar e prover à casa; e mãe, responsável pelo cuidado com os filhos no dia-a-dia e por ser dona de casa, é claro. Se é verdade que educação começa em casa, há que se mudar muitas gerações.

Cresci me mudando de cidades. Morei em 7 cidades diferentes e chamei de casa mais de 15 endereços por 5 Estados brasileiros. Em todos eles, durante a infância e adolescência, presenciei ou fui vítima de ‘brincadeiras’ que envolviam a homossexualidade – e, nada coincidentemente, meus colegas mais próximos de classe quase sempre eram, também, alvos de piadas. Entendi que não era algo de um local específico, mas de toda uma sociedade.

Nunca me incomodei com as situações, talvez por não entender qual era a enorme graça que se via em gritar que um menino gostava de outro. E ainda que não me sentisse atraído por outros garotos, a impressão era de que havia um enorme ponto de interrogação sobre a minha cabeça. Conheci bem cedo uma prima lésbica, de segundo grau, que quase não frequentava os eventos familiares por motivos bastante óbvios. Ouvia comentários sobre suas “companheiras” – um termo que eu, pessoalmente, desprezo; por que não esposa? – e sua abominável vida de homossexual. Mal sabia que, menos de 10 anos depois, seria eu a me afastar dos tais eventos da família.

Ao entrar na faculdade de Ciências Sociais, pude ver de perto de onde saem as ideias que se propõem a mudar a sociedade. Ali, estive no convívio de pessoas de todas as origens, sexualidades, identidades, raças e cores; que muito fizeram a quebrar minhas ideias preconcebidas e, por fim, destrinchar todo o emaranhado de dúvidas que surgiram ao longo dos meus, até então, 19 anos. A partir daí, militei pela causa LGBTTT, fundei junto a um coletivo uma festa anual na USP na semana da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, carreguei a bandeira na Avenida Paulista com direito a fotos e vídeo no SP TV e até uns tapas na rua – por ter cabelo grande e “jeito de gay” – levei.

Love Wins: humanidade vs. egoísmo

Voltando ao dia de hoje, li postagens em tom de deboche sobre a decisão da Suprema Corte dos EUA e até mesmo a respeito dos avatares com as cores da bandeira do orgulho LGBT, disponibilizados pelo Facebook. Alguns, quando convidados a participar da comemoração e trocar suas fotos de perfil – convenhamos, a timeline está ótima assim –, recusaram e argumentavam que não são gays ou lésbicas e nada tem a ver com aquilo. Uma enorme demonstração de egoísmo.

Ora, deve-se, sem sombra de dúvidas, respeitar a individualidade de cada pessoa e suas convicções. Mas hoje, queridos habitantes deste mundo, entendam: não se trata de ser gay, trata-se de celebrar o amor. Só isso. A mim, soa como a máxima do egoísmo e falta de espírito coletivo se eximir da sensação indescritível que é a consolidação do amor, qualquer que seja.

Muito embora a decisão tenha validade só nos Estados Unidos, ela carrega um significado intercontinental. Hoje, por exemplo, a minha prima lá do interior de São Paulo, que desde sempre é mal vista pela família, tem mais esperança de que um dia, quem sabe, ela também possa se casar, em vez de ter de comprovar união estável. Hoje, meu primo mais novo que sofreu no colégio e foi misteriosamente rejeitado por uma parte da família quando se assumiu, renovou a vontade dele de lutar por essa equidade no Brasil. Hoje, um amigo que teve o ombro deslocado pelo pai quando se assumiu gay, sente que, ainda que seja lá longe, ele também venceu. Hoje, eu tenho a sensação de que ainda vou poder presenciar muitos, incontáveis casamentos dos amigos e amigas que tenho.

Tenho a convicção de que, por não ser gay, não vivi muitos dos problemas que, a exemplo, amigos meus viveram e pude ver de perto. Por outro lado, eu sempre quis estar ali onde estive e ser parte dessa luta diária. De tudo, ficou a lição: ninguém precisa ser gay, lésbica, bi, travesti, transsexual ou transgênero para militar pela igualdade. Basta ser humano.

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