O fetiche da Lolita: mocinhas de novelas e homens muito mais velhosEditorial

O fetiche da Lolita: mocinhas de novelas e homens muito mais velhos

Você já parou para pensar sobre o papel das novelas na sociedade brasileira? Mesmo com o crescimento de downloads e serviços de streaming, elas ainda são responsáveis pela maior parte – e maior audiência – dos canais de TV aberta.

Mas para além do entretenimento, as novelas passam mensagens para a população. Relatando uma história, elas acabam refletindo sobre a nossa própria cultura, e também influenciando sobre o que a gente consome e pensa.

Existem inúmeras análises que podem ser feitas sobre esse tipo de programa, mas hoje eu queria falar sobre um em especial: garotas. Mais especificamente, sobre como a nossa TV, principalmente a Globo, retrata os relacionamentos dessas garotas – muito comumente, com homens mais velhos.


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‘Lolita’ romantizada

Quem já passou da adolescência deve se lembrar da série Presença de Anita. Exibida em 2001, a minissérie narrava a relação amorosa de Nando (José Mayer) e Anita (Mel Lisboa), um tanto complicada. A minissérie foi inspirada em Lolita, romance de Nabokov sobre um pedófilo que abusa de sua enteada. Só que, ao contrário da série, o livro é em tom de julgamento do homem. Na época, José Mayer tinha 52 anos, e Mel, 19. E é claro que Anita destruía a vida do homem casado e pai de família.

Mocinhas de novela e homens muito mais velhos: o fetiche da 'ninfeta'

Mais de uma década depois, a Globo exibe Verdades Secretas, explicitamente inspirada em Presença de AnitaLolita. O enredo é semelhante: a jovem Angel (Camila Queiroz) de apenas QUINZE anos se envolve com Alexandre (Rodrigo Lombardi), de trinta e oito, que acaba por se casar com a mãe da menina para ficar mais perto dela. Angel destrói a própria família e mata o padrasto no final. Com um agravante: Alexandre, dono de uma agência de modelos, prostituía adolescentes, Angel inclusa. A novela ganhou um Grammy e foi transmitida em mais de 30 países.

O papel da ‘ninfeta’ nunca é questionado

Marina Ruy Barbosa parece ser a nova favorita da Globo para esse tipo de relacionamento. Aos 19 anos, era a amante sempre semi-nua de Alexandre Nero, 44 anos, em Império. Aos 20, vive a protagonista de Totalmente Demais, que sofre uma tentativa de estupro por parte do padrasto, foge de casa e fica sem-teto; para ser abrigada pelo agente de modelos vivido por Fábio Assunção, 43 anos, com quem se envolve romanticamente. Em nenhuma das novelas é levantada a questão dos seus pares românticos terem o DOBRO da sua idade.

Poderia me alongar por horas, mas não vou. O ponto é: porque tanta frequência em retratar relacionamentos que sempre seguem o padrão menina-quase-adolescente e homem adulto e com filhos? E claro, sempre o padrão: essas garotas são sempre inocentes e sedutoras, e os homens, maduros e ‘garanhões’.

Mocinhas de novela e homens muito mais velhos: o fetiche da 'ninfeta'

Novelas ajudam a disseminar ideias

O Brasil, atualmente, é o QUARTO país em número de casamentos infantis, contabilizando meninas casadas de 10 a 18 anos. É óbvio que novelas não são as únicas influenciadoras da população, mas com certeza ajudam a naturalizar as coisas. E, no caso, nossas novelas acham normal naturalizar relacionamentos de garotas jovens e homens com idade para serem seus pais. Isso sem falar em adolescentes fetichizadas, como Em Família, que tinha cenas de Bruna Marquezine seminua ou com closes em seu corpo, ainda com 17 anos.

Relacionamentos com tanta diferença de idade entre casais levantam várias questões. Primeiro, que a parte mais nova é sempre uma garota, raramente um rapaz. Segundo, que diferenças grandes de idade, ainda mais nessa faixa etária, estão atreladas à grandes diferenças financeiras e de experiências, que com MUITA frequência levam à dependência. A última, mas não menos importante, é: por que garotas jovens são sempre alvo de interesse de homens adultos? Esse é um debate que precisa ser levantado.

Claro que diversas atitudes têm de ser tomadas para diminuir o número de casamentos infantis, que é uma questão cultural no Brasil. Mas, com certeza, o caminho da naturalização inquestionável desses relacionamentos não é o caminho. Ainda mais quando responsabilizam uma garota pela ‘destruição’ de uma família.

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