O retrato de uma guerra: a dor e o alívio de um fugitivo sírio em chegada à GréciaEditorial

O retrato de uma guerra: a dor e o alívio de um fugitivo sírio em chegada à Grécia

Muita gente gosta de reclamar da vida difícil aqui no Brasil. Afinal, a crise chegou para todos. Mas será que somos capazes de explicar por que nossa crise é maior que a dos outros? Emigrar do nosso país por conta das dificuldades atuais surgiu para muitos como a grande solução de todos os problemas.

‘Fugir’ do Brasil é realmente necessário? A emigração tem inúmeros motivos, mas eles certamente provém de algo muito maior que o ‘alto preço’ do iPhone em seu país de origem.

Nesta semana, uma foto impactante rodou a internet. Clicada por Daniel Etter, um fotógrafo freelancer a trabalho pelo New York Times. O registro incomoda porque mexe com toda a nossa concepção de dificuldade: na foto estão estampados a dor e o sofrimento de um pai que fugiu da Síria em busca de refúgio na Grécia. Veja a imagem completa:

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Não é novidade para ninguém que a situação no Oriente Médio anda muito complicada. Ontem mesmo, dia 19 de agosto, pelo menos 10 pessoas foram mortas pelas forças curdas, em um atentado suicida no quartel general de Quamicli.

Tratam-se de desdobramentos da complexa e duradoura guerra entre milícias curdas da Síria e grupos radicais jihadistas do Estado Islâmico, que atualmente controlam grande parte do território sírio, além do Iraque.

Tudo é uma questão de perspectiva: enquanto você reclama da situação insustentável do nosso país, pedindo impeachment ou sugerindo o suicídio da presidente da nação, existem milhares de pessoas que realmente precisam tomar decisões difíceis e romper os laços com suas casas, ruas, bairros, cidades e principalmente, histórias de vida.

Imigração Síria: A história por trás de uma foto

Ver um pai de família, em lágrimas, segurando seus filhos após chegar na ilha de Kos, na Grécia já é algo que nos toca. Tudo fica ainda mais emocionante ao sabermos que aquele homem fez de tudo para salvar sua família, o seu bem mais precioso.

Ele e seus filhos navegaram por mais de duas horas dentro de um barco inflável, com mais pelo menos 15 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Etter contou mais sobre o sofrimento de todos eles nesta dolorosa travessia:

Depois de mais de duas horas de viagem o barco perdeu o ar e a água entrou para dentro dele. Os refugiados foram se encharcando até chegar na costa, onde se sentiram aliviados por terem chegado com segurança.

Dá para imaginar todo o sofrimento do pai na foto, quando ele finalmente colocou os pés naquele chão que agora representa o início de uma nova jornada, que começa do zero e procura dar um futuro melhor às suas crianças.

Provavelmente ele fugiu de toda a tensão e risco de se viver na Síria nos dias de hoje; e isso foi notado por milhões de pessoas que visualizaram a foto de Etter, amplamente divulgada nas redes sociais.

Tensão entre grupos opostos: uma das principais causas da imigração de sírios.

Tensão entre grupos opostos: uma das principais causas da imigração de sírios.

O preconceito, a guerra e a busca pela paz

Tudo isso muda nossa percepção de migrantes: enchemos o peito, por exemplo, para falars que sairemos do nosso país o mais rápido possível, acreditando que outras regiões nos receberiam de braços abertos e significariam sossego, dinheiro e uma vida melhor.

Mas também enchemos o peito para criticar africanos que se arriscam mar adentro por motivos reais de novas oportunidades. Criticamos cubanos que largam suas vidas para trás em busca de salvar outras vidas por aqui.

Segundo a ONU, o número de refugiados na Grécia tem crescido vertiginosamente e hoje está em cerca de 160 mil pessoas por ano. Somente na semana passada, foram um total de 20.843 pessoas chegando em solo grego. Deste total, 82% são Sírios.

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Todas estas pessoas procuram um futuro melhor, mais seguro; mas sabem que nada é certo. Eles tentam se beneficiar ainda do chamado Estatuto do Refugiado, um conjunto de benefícios criados para amparar aqueles que se consideram refugiados de guerra em seus países de origem.

Tal ato tem gerado revolta na cidade de Kos, uma das principais entradas destes imigrantes na ilha grega. Há três dias o governo da Grécia disponibilizou um navio que levaria todos os sírios recém-chegados para Atenas. Pelo jeito, alguns moradores se sentem incomodados com a “invasão”, deixando de lado toda a dificuldade enfrentada por aqueles que chegam.

Não é muito diferente do que nos acostumamos a ver por aqui, em terra brasilis. Só esquecemos que somos todos, acima de tudo, humanos; e o que incomoda mais não é uma invasão de estrangeiros, mas sim imaginar que a dor e o sofrimento de pessoas como este pai de família ainda não tiveram fim.

Mesmo com apoio do Estatuto dos Refugiados, o futuro do homem clicado na foto é incerto, mas o caso deve ganhar maior atenção agora que a foto rodou o mundo e causou comoção coletiva. Pelo menos isso: um alento e o desejo de que refugiados de guerra consigam alcançar o equivalente antagônico desta triste palavra: que eles finalmente consigam alcançar a paz, independente de onde estejam.

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