Você não sabe o que é ser uma mulher negra, HalseyMúsica

Você não sabe o que é ser uma mulher negra, Halsey

Halsey estampa a capa da nova edição especial da Playboy dos Estados Unidos. A cantora norte-americana, mais conhecida pelo hit Closer em parceria com The Chainsmokers, falou bastante sobre o fato de ter crescido em uma família birracial, com seu pai negro e sua mãe branca.

Em entrevista, veio a polêmica do momento. Ela até disse que não tenta controlar nada sobre cultura negra, que não é dela. Mas ela foi realmente infeliz ao acrescentar:

Eu pareço uma garota branca, mas não sinto à vontade com isso. Eu sou uma mulher negra. Então foi estranho conviver com isso. Quando eu estava crescendo, eu não sabia se deveria amar TLC ou Britney.


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Por Emília Joana

Parece que Halsey se esqueceu da história

Se autoafirmar como mulher negra é como se Halsey desconhecesse a formação sócio-histórica de seu país. Uma nação de bases escravocratas, que privilegiava brancos.

Nas sociedades norte-americana e brasileira, tais bases definem a vida das mulheres negras. Isso porque os processos de escravidão que marcam a colonização violenta (sobre os territórios e corpos de mulheres negras e indígenas) e a fundação das sociedades norte-americana e brasileira tem suas especificidades. Porém, há muitas coisas, em função do racismo, que herdamos nesse processo histórico e que determina a formação social, cultural, espacial e institucional desses dois países.

Como o racismo se constrói

Assim, o racismo se constrói. Em um primeiro momento, ele se forma através das narrativas que visavam supremacia branca. Em outro, em uma tentativa de justificar a exploração do trabalho escravo através da argumentação biológica do termo “raça”.

A sociedade terá lugares onde as mulheres brancas e negras estarão juntas. Isso nos mostra, por exemplo, a necessidade de enegrecer o feminismo. Isso levaria à compreensão das especificidades colocadas pelo capitalismo e patriarcado, mas também pelo racismo na vida das mulheres. Poderíamos solucionar um grande problema com gestos corriqueiros.

A violência sobre os corpos das mulheres negras

A violência se inaugura no processo da diáspora africana sobre os corpos das mulheres negras por meio dos estupros de homens brancos. Ela anuncia tais corpos como objetos, como “a carne mais barata do mercado” e permanece até os dias atuais. Tal fato mostra que, no período de 2003 a 2013, o índice de homicídios nos quais as vítimas são mulheres negras subiu 54,2%. Esse dado foi retirado do Mapa da Violência produzido pela ONU sobre homicídio das mulheres brasileiras no mesmo período.

As violências sofridas pelas mulheres negras não são somente as visíveis ou físicas. Elas são violentadas intelectualmente. Além de serem as mais exploradas sexualmente, ocupam os cargos mais precarizados no mundo do trabalho. As negras têm menores índices educacionais, não acessam diversos direitos básicos e, consequentemente, não ocuparão parte significativa dos espaços de poder. Vale ressaltar o número de mulheres negras no congresso nacional ou no judiciário brasileiro, por exemplo.

Quando olhamos para a vida das mulheres transexuais e travestis negras no Brasil, a violência que o conservadorismo e o estado realiza sobre essas vidas não produz se quer estatísticas. O noticiário não apresenta seus nomes nem para divulgar suas mortes.

Afinal de contas, o que é ser negro(a)?

Ninguém melhor do que a Polícia Militar brasileira ou os supremacistas brancos de Charlottesville para identificar. Existem várias tentativas de brancos (as) tentarem ter uma alma negra. Algumas delas em conhecidas letras de samba no Brasil, por exemplo. A partir daí, bastou a mão branca tocar o pandeiro para o ritmo, antes criminalizado, virar música popular brasileira.

Acontece que, como bem canta Chico César, “alma não tem cor”. Porém, o racismo opera a partir de critérios muito bem delimitados. Basta lembrar de abordagens policiais ou onde a bala perdida se perde. Se perde, ou procura alguém com cor de pele negra.

Uma mulher negra vai ser identificada a partir de critérios estereotipados. Em um país onde a raça, majoritariamente, determina a classe social, quem cozinha é a Tia Anastácia, mas quem vai pro rótulo da farinha é a Dona Benta. Mulheres brancas podem até usar turbante como moda, ou quererem ser negra quando convém, mas quem é arrastada pela polícia é a Cláudia Silva Ferreira.

A família birracial de Halsey

O fato de uma família ser birracial também não a torna uma mulher negra, se os traços que ela carrega de fato não são. Sendo assim, não existe turbante, trança, dreads, saia africana ou a entrada em uma religião de matriz afro-brasileira que a torne negra.

Essa afirmação infeliz só nos mostra que, cada vez mais, o que deve ser estudado pela academia não é o negro, e sim, a “branquitude”.


Sobre Emília Joana

Ela é uma mulher negra, advogada popular, pesquisadora das temáticas de patriarcado, racismo e comunidades quilombolas, mestranda em Estado, Direito e Constituição na Universidade de Brasília, onde ministra a disciplina de Direito, Relações Raciais e Diáspora Africana, uma construção do Grupo de Estudos em Cultura Jurídica e Atlântico Negro, o MARÉ. É também militante do Levante Popular da Juventude e parte do IPDMS – Instituto de Pesquisa em Direitos e Movimentos Sociais.

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