DyE: clipe de “Fantasy” é análise da descoberta da sexualidadeEletrônica

DyE: clipe de “Fantasy” é análise da descoberta da sexualidade

Dye - Fantasy (01)

Quando era jovenzinho e ainda assistia Spawn na HBO de madrugada, concebi a ideia de que animações tem um propósito maior que apenas entreter crianças. Acredito fielmente que liberdade gráfica disponibilizada pela animação capacita sonhadores, roteiristas e desenhistas a se expressarem de um forma tão abrangente e infinita.

O cantor e compositor francês Juan de Guillebon, sob o pseudônimo de DyE, lançou em 2011 o disco Taki 183. Dentre as dez músicas do álbum, Fantasy foi selecionada para um clipe, cujo diretor geral e de criação foi o francês Jérémie Périn. E não poderia ser alguém melhor. Assista ao clipe:

A audição humana dificilmente pode ser treinada para ser extremamente seletiva. Por outro lado, a nossa visão esbanja apetrechos para controle de conteúdo: fechar os olhos, olhar para outro lado e até girar todo o corpo. Logo, para que algo capte nossa atenção, é necessário um trabalho árduo. O clipe de Fantasy conseguiu fixar meus olhos e estagnar minhas pálpebras.

Dye - Fantasy (03)

Os elementos inseridos no vídeo ajudam a compor uma interpretação por trás da trama, aparentemente sem sentido. Os acontecimentos entre os quatro personagens são bem simples a nível físico, mas complexos a nível psicológico. Comecemos pelo ambiente onde se passa a história: para entrar ou sair, você precisa da ajuda de alguém – detalhe que traz o sentimento de aventura e “proibido”. A piscina, por sua vez, parece ter poder de transformação sobre os personagens, criando choque em alguns personagens – sem falar que há estudos que relacionam a água como ativadora da libido nos seres humanos.

Dye - Fantasy (04)

Logo de início, a garota tímida demonstra corporalmente seu desinteresse pelo garoto que a cerca, aliado a uma notável estranheza à situação. Os outros dois jovens, já bem entrosados, parecem completamente confiantes e preparados para a situação. E aí vem o desenrolar: o que era para ser uma noite memorável se transforma em uma visão lovecraftiana da descoberta da sexualidade.

A desibinição mostrada pelo casal engajado encoraja o garoto sozinho a dar o primeiro passo em direção a seus desejos, embora a tímida garota se assuste e pule imediatamente na piscina, em uma tentativa de refúgio. Submersa, ela aproveita um momento sublime de paz antes de perceber que há algo querendo fugir de seu sexo, incontrolável. Assutada, foge da água e tenta se recuperar. Atenção para o que virá.

Dye - Fantasy (05)

Ao olhar para frente, a tímida garota percebe uma visão dantesca de seus amigos. Observa o casal e vê que o garoto teve seu braço transformado em um tentáculo, totalmente penetrado no abdômen de sua parceira. Ao tentar fugir, é atacado pelo tentáculo, que o despe – perceba que aqui o ataque apenas rasga os shorts, sem causar qualquer dano – para que, então, a garota do casal possa atacá-lo, justamente na virilha. Essa ação conjunta do casal traz a analogia de como as relações sexuais expõem a parceira, como em o preparo de um banquete. A garota do casal, portanto, passa a representar a sexualidade feminina, e não mais uma simples menina.

Dye - Fantasy (06)

Desesperada, a garotinha busca fuga por todos os cantos da sala, mas percebe que não conseguiria sair sozinha. Ao tentar escapar de um ataque, ela instintivamente pula na piscina. Olhando para o fundo, percebe que ele passa a refletir a sua imagem e se torna uma espécie de portal entre dois mundos. Assustada, adentra o tal mundo e se vê em um lugar arenoso e cercado de pedras.

Dye - Fantasy (07)

A garota olha para cima e sente seus olhos queimarem, violentamente. Cai ajoelhada, em sinal de submissão, e o plano se abre para revelar uma criatura gigantesca e disforme – mas incrivelmente parecida com o tentáculos que perseguiam a garotinha nas cenas anteriores. A tal criatura, portanto, representa a sexualidade e o amadurecimento, mundo novo em que a garotinha acabara de entrar. 

Apesar de letra da música abrir espaço para outras interpretações, o diretor aborda de forma pontual e bastante dinâmica a descoberta da sexualidade e arranha a superfície das relações adolescentes contemporâneas. Afinal, a sexualização de adolescentes (e até mesmo crianças) é empurrada cada vez mais cedo e vem de todos os lados possíveis.

Dye - Fantasy (08)

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