Devemos sim debater a descriminalização do abortoEditorial

Devemos sim debater a descriminalização do aborto

Dráuzio Varella, um dos maiores médicos do país, chamou a atenção de todos ao dar a sua opinião sobre o aborto. Ele voltou a falar sobre aborto, principalmente agora que o assunto ganhou outra variável: microcefalia.

As palavras de Varella ecoaram em diversas esferas da sociedade, e reacenderam o debate sobre o tema; debate este que nunca esfriou por completo.

Mas será que podemos traçar uma linha entre a zika, a microcefalia, a pobreza e a necessidade da legalização do aborto? Pelo jeito, parece que sim.

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O que está por trás da descriminalização do aborto

Vamos primeiramente analisar a frase do Dr. Dráuzio Varella. Aborto já é livre no Brasil? Por mais que muitos não queiram, e de forma ilegal, sim, é livre. E como disse o médico, tudo não passa de falsidade e hipocrisia.

A mulher rica faz normalmente e nunca acontece nada. Já viu alguma ser presa por isso? Agora, a mulher pobre, a mulher da favela, essa engrossa estatísticas. Essa morre.

E é de fato o que acontece. Mas este nem de longe é o principal problema. Enfrentamos ainda a religiosidade de alguns, os achismos de outros, a questão da zika vírus, e a questão financeira, claro.

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A questão financeira

Esta questão está inteiramente ligada à instrução. Infelizmente no Brasil os mais pobres têm um menor nível de instrução. Junte a falta de dinheiro com pouco estudo e temos diversas mães que engravidam muito cedo e decidem abortar.

O principal problema é que estas mães, justamente por serem pobres e terem pouco estudo, não reconhecem os riscos de uma clínica clandestina para aborto.

Existe um submundo de pessoas que se aproveitam da dor alheia, e cobram uma quantia relativamente alta para realizar aborto em mães, muitas vezes, sem condições de criar seus filhos.

Estes abortos são realizados de qualquer jeito, sem respeitar a saúde dos envolvidos, colocando em risco a vida da própria mãe. E infelizmente, fechamos os olhos para tudo isso.

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A questão histórica e religiosa

Outros criticam o aborto justificando seu ponto de vista na religiosidade. Deus criou o mundo, Deus deu o dom do nascimento, e qualquer um que tente interromper isso está pecando ou fazendo algo errado.

Alguns ainda acreditam que interromper uma vida ainda no útero é assassinato. Neste ponto, voltemos à questão que sempre aparece: o que é vida para você? Quando ela começa? O que é certo ou errado?

Aos religiosos que criticam o aborto, vale um pensamento mais amplo e menos focado no que a tradição vem dizendo através de milênios. Cada mulher sabe os riscos que corre; cada grávida sabe o que consegue ou não suportar.

E o que é pior, num caso digamos, comum: a mãe não tem condições de criar um filho, mas engravida porque não tem instrução e transou sem camisinha. Ela deveria poder escolher abortar ou continuaria com a gravidez, dando ao seu filho quando ele nascesse uma vida completamente limitada?

Esta mesma mãe estaria pronta para arcar com todas as consequências (boas e ruins) de uma gravidez e a criação de um filho? Ela estaria sendo pecadora por isso? Cada mulher, assim como cada pessoa, deveria ser dona das suas próprias decisões.

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A questão do estupro

É basicamente o mesmo que acontece quando uma mulher sofre estupro. Seria saudável continuar uma gravidez nunca planejada? Como ficaria a vida dessa mãe no futuro, seus traumas e problemas?

O filho viria em uma boa hora? Proibir o aborto em casos assim é de uma arrogância enorme. Às vezes é melhor ser mais realista e objetivo para tratar de casos assim.

E tem mais: zika vírus

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a zika é uma epidemia mundial, mas apenas o Brasil e a Polinésia Francesa possuem dados que comprovem a ligação da zika com a microcefalia. E é aqui que entra o aborto.

O diagnóstico definitivo da microcefalia só ocorre com certeza no terceiro trimeste da gravidez, entre os 6º e 7º meses. Neste caso, Varella ainda diz não ter opinião formada, principalmente porque no 7º mês um bebê está quase formado.

Se uma mãe que contraiu a zika descobre no 7º mês que seu bebê tem microcefalia, ela deveria ter o direito de abortar? Bem, cada um pode ter uma opinião, e justamente por isso deveríamos também respeitar a decisão alheia. Como diz Dráuzio:

O importante é dar liberdade aos que pensam diferente. Essa é a questão fundamental do aborto.

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Pobreza, política e casos paralelos

Dráuzio também lança um olhar sobre casos de morte encefálica. Em muitas situações que envolvem morte cerebral, os órgãos de quem sofreu a morte podem ser retirados para doação.

Teoricamente a pessoa não está morta, mas na prática, sim. E isso justifica o direito de se fazer a extração dos órgãos. Por que não ampliar este direito de escolha para casos de gravidez não desejada?

No Brasil, aborto é crime; mas isso pode mudar em breve, uma vez que uma ação que pede a descriminalização do aborto em casos comprovados de má-formação do feto podem chegar ao STF.

Novamente, segundo a Organização Mundial de Saúde, a cada dois dias uma brasileira morre por conta de procedimentos de aborto mal feitos. Ainda segundo a OMS, um milhão de abortos clandestinos são feitos no país todos os anos.

Por trás de todos estes casos, muitas histórias de dor, medo, falta de dinheiro e riscos tanto na fase da gravidez quanto depois do nascimento das crianças.

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É uma pena não termos dado educação suficiente para pessoas mais pobres, que poderiam assim ter mais instrução, conquistar cargos melhores que corresponderiam salários maiores e um conhecimento maior para decisões tão importantes como o aborto.

Mas sabemos que isso não resolve a situação, só que ajuda a exatamente descriminalizar a prática, beneficiando diretamente milhões de mães que fazem o aborto de forma escondida e ilegal.

Independente do que você ache, é preciso ser realista para perceber que a descriminalização do aborto poderia salvar vidas, independentemente se acaba com outras (mesmo que isso seja relativo).

Só não podemos fechar os olhos para percebermos o risco que mulheres sofrem, todos os anos. Nem devemos tirar delas o direito de escolha de algo que pode impactar o resto de sua vida. De duas vidas.

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