A ‘cura gay’ e as dificuldades de ser LGBT no BrasilBuzz

A ‘cura gay’ e as dificuldades de ser LGBT no Brasil

Estamos diante de mais uma afronta aos Direitos Humanos no Brasil. No dia 15 de setembro, a justiça do Distrito Federal concedeu uma liminar que abre brechas para o tratamento da homossexualidade por psicólogos, a famosa cura gay.

Além de ser uma afronta à comunidade LGBT, o texto praticamente ignora a resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia que proíbe “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas“. Em palavras comuns: ser gay não é doença e os psicólogos não podem tratar como se fosse.

O principal argumento é que a decisão do Conselho impede o desenvolvimento científico do país e afeta os “interessados” nesse tipo de assistência psicológica.

Em 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças e transtornos em resposta a toda mobilização da comunidade LGBT. Com isso, diversos setores da sociedade precisaram rever suas práticas frente à diversidade sexual. Novamente, se não é doença, não pode tratar como se fosse.

Mesmo assim, a discriminação contra homossexuais no Brasil não diminuiu depois disso. Hoje, é o país que mais mata homossexuais em todo mundo (1 a cada 25 horas). Lidera disparado quando falamos de travestis e transexuais – cujas pautas ainda têm muito o que avançar.

A juventude gay enfrenta dificuldade no mercado de trabalho, a população trans não tem acesso à educação plena e todo dia surge um relato de um jovem LGBT expulso de casa por conta de sua orientação sexual.

Essa liminar não é a primeira – nem será a última – que teremos que enfrentar na luta contra o preconceito. Somado a ela, ainda tramita na Câmara o projeto que permite totalmente a cura gay.

Em 2015, outro projeto entrou em tramitação. O objetivo é “atualizar” o Estatuto da Família e definir família apenas a união entre homem e mulher. Nosso meio político está dominado pelo fundamentalismo religioso. São Felicianos e Malafaias que se apropriam de forma distorcida do discurso religioso para disseminar o ódio contra o diferente.

A doença aqui é outra e tem nome. Chama-se homofobia.


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Um pequeno histórico do movimento LGBT

Uma informação antes: a sigla LGBT representa o conjunto de diferentes movimentos que defendem a liberdade sexual. As lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais têm pautas específicas, mas é mais didático fazer essa sopa de letrinhas.

O movimento LGBT aqui no Brasil já vinha se fortalecendo no combate a discriminação desde a ditadura. Folhetins de resistência como o O Lampião da Esquina  e Chanacomchana apareceram nessa época.

Mas visibilidade aumentou mesmo com o boom da AIDS na década de 1980. A doença alarmou toda a sociedade. Os homossexuais, principalmente homens e transexuais, ganharam um estigma de disseminadores dessa patologia mortal. A pauta precisou mudar de libertação sexual para saúde pública.

A preocupação com a epidemia era enorme e fez com que vários desses movimentos ganhassem verbas do governo para seu controle e conscientização. Essa seria a primeira “vitória” da comunidade LGBT no Brasil.

Em 1985, o Conselho Federal de Medicina, por pressão do Grupo Gay da Bahia e da comunidade civil, teve a decisão favorável sobre a despatologização da homossexualidade. Cinco anos depois, em 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças e transtornos. Em 1999, foi a vez do Conselho de Psicologia tomar a decisão.

As poucas vitórias: Casamento civil, redesignação sexual e nome social

Outras pautas do movimento conseguiram algum êxito. Em 2002, o Conselho Federal de Medicina autorizou a redesignação sexual (mudança de sexo). E desde 2008, a cirurgia é realizada pelo SUS.

O Supremo Tribunal Federal em 2011 reconheceu a união civil estável entre homossexuais. E desde 2013, a união pode ser convertida para casamento civil.

O nome social, mais usado por pessoas transexuais e travestis, não possui uma decisão comum para todo território. Mas várias instituições, federais, estaduais, municipais e privadas já permitem sua utilização. Desde 2009, o SUS reconhece o nome social e, a partir de 2013, o ENEM também.

Apesar dessas conquistas, a comunidade LGBT ainda é impedida de amar, seja lá quem for.

Comunidade LGBT da internet reage com humor à liminar sobre cura gay

Maravilhosa como é, as gay da internet levaram na esportiva a liminar sobre a cura gay, apesar da seriedade do assunto. Olha só que sensascional:

Ao lado dos tratamentos sérios à decisão absurda do juiz Waldemar, autorizando a "cura gay", nós também podemos recorrer ao humor como antídoto contra a estupidez, o fascismo e o fundamentalismo religioso. AMO Paulo Gustavo! Hahaha

Posted by Jean Wyllys on lunes, 18 de septiembre de 2017

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