Crítica: ‘Corpo Elétrico’ mostra um subúrbio gay ainda inexplorado no cinemaCinema

Crítica: ‘Corpo Elétrico’ mostra um subúrbio gay ainda inexplorado no cinema

Inspirado em Eu Canto o Corpo Elétrico, do poeta americano Walt Whitman (1819-1892), Corpo Elétrico é um filme a se debater. Não só pelas qualidades técnicas, mas pela representatividade que explora. O diretor Marcelo Caetano nos leva ao subúrbio paulistano e nos mostra o retrato de trabalhadores comuns, fora da estética e narrativa a que estamos acostumados.

Exibido nos festivais de Roterdã, Hong Kong e Cracóvia e premiado com o troféu destinado aos títulos de temática gay em Guadalajara, Corpo Elétrico segue Elias (Kelner Macêdo), um jovem paraibano de 23 anos que trabalha em uma confecção de roupas em São Paulo.

Elias representa uma parte da geração que não vê perspectiva no futuro. Porém, a voracidade da rotina cansativa ganha um escape no fim do dia quando o personagem consegue fugir dessa cidade limitadora. É exatamente nessa saída do expediente que vemos o sumo do longa.


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‘Corpo Elétrico’ é uma narrativa incomum que representa um subúrbio gay inexplorado no cinema

A primeira cena é de Elias contando que gostaria ver o mar. Ele está acompanhado de outro homem, com quem se relaciona ocasionalmente. A pele na pele – pele de homens reais, sem ficção ou modelos – nos revela as inquietações de um proletariado gay cuja resistência se dá na instância mais primordial: o corpo.

“E se o corpo não for alma, que será a alma?”, diz o verso do poema que inspirou o filme. A cada transa, conversa ou encontro, vemos uma convivência necessária entre partes da sociedade que são antagônicas.

Caetano nos leva a várias tensões que, no fim, não dão em nada. Como quando Elias transa na casa de um colega de trabalho e acaba sendo flagrado por ele, mas em modo geral, isso explicita que o afeto acalma os nervos.

O conflito não existe na trama. Apesar de parecer estranho, ou talvez frustrante aos que esperavam algo comum de um filme LGBT, é a negação de conflito por vontade própria e não por ignorância que revela a intimidade dos personagens. Talvez soasse superficial em algumas cenas, mas não podemos despir tanto. O filme é mais que isso.

‘Corpo Elétrico’ e a libertação dos conflitos

Em um dos planos mais lindos do filme, todos estão reunidos andando no meio da rua à noite. Um plano-sequência emblemático de fotografia crua e conversas sinceras nos traz uma diversidade que está reunida. São nichos expandidos: as bichas, os evangélicos, negros, pobres… As trocas são espontâneas e a opressão que se espera é ignorada pelo alívio de, enfim, poderem beber uma cerveja com calma após um dia de trabalho.

A cena de todos reunidos no ônibus cantando Marrom Bombom é outra daquelas tão comuns no nosso dia-a-dia que ficamos surpresos de ver em uma tela grande. A realidade está ali.

Ainda, ao mesmo tempo em que Elias vive sua rotina e sai com os colegas de trabalho, ele também transita no meio LGBT “underground” de São Paulo. Também temos as motos, ornamentadas de leds, que iluminam a noite junto com as risadas de uma liberdade momentânea das drag queens. 

A noite é o momento de ser o que é e divertir-se. Márcia Pantera e MC Linn da Quebrada aparecem como personagens fortes nesse momento. São as “Bicha estranha, louca, preta, da favela” que vieram conquistar seu espaço. O incrível é como isso representa, quase como uma efígie cuja moeda dá liberdade a outros tipos de narrativas da periferia. Agora, é possível fugir do sonho idealizado da fama, da competição ou do sucesso financeiro. Existem outros filmes a se contar e Corpo Elétrico parte disso.

Um time de realizadores

Corpo Elétrico contou com um time de realizadores que não são qualquer coisa. Marcelo Caetano foi assistente de direção de Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013), Boi Neon (Gabriel Mascaro, 2015) e Mãe Só Há Uma (Anna Muylaert, 2016). Ele também é o responsável pelo elenco do premiado Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016). Hilton Lacerda, diretor de Amarelo Manga (2002), é quem colabora no roteiro junto com Gabriel Domingues.

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