Corredores e ruas: o centro pesa e a tensão nos polos aumenta após manifestaçõesEditorial

Corredores e ruas: o centro pesa e a tensão nos polos aumenta após manifestações

A política brasileira virou um caldeirão de possibilidades desde o fim das eleições de 2014. Nas últimas semanas, a temperatura chegou aos 99 graus, mas não ferveu. Por volta do dia 6 de Agosto, algo aconteceu em Brasília, colocando de lado (até segunda ordem) o desfecho da derrubada de Dilma Rousseff, que chegou a parecer irreversível, após o chamado do vice Michel Temer para que “alguém” conciliasse o país. Na saída que se construiu, esse alguém foi Renan Calheiros, e não o vice, como se especulou fortemente naqueles dias.

Uma a uma, reduziram-se as chamas do inferno de Dilma: as Organizações Globo e a Folha de São Paulo mudaram com o vento e passaram a defender a estabilidade do país e a governabilidade; TCU e TSE sentiram a força da tangente, descarrilhados do carrossel armado até então; setores do mercado financeiro e da indústria sinalizaram apoio à estabilidade; e as manifestações marcadas para o último dia 16, até então candidatas à “tomada do palácio”, passaram a ser questionadas em sua consequência pelas grandes vozes que até então as exaltavam.

Por trás desta série de eventos, a mão invisível dos grandes empresários e a engenharia de velhas raposas operavam. Os meandros da história do dia 16 de agosto ainda serão contados, mas as personagens e seus interesses desfilaram abertamente pelo noticiário. Nesta última semana, alguns sujeitos escreveram uma nota na história, talvez pequena e provisória. Outros, de fora do aperto de mãos, ainda querem escrever a sua.

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Os corredores

No mundo dos negócios, a instabilidade dada em potencial e o impasse das oposições – quem derrubaria e quem assumiria – elevaram os riscos de um xeque mate no PT. Na política, Renan Calheiros projetou-se sobre a crise, oferecendo uma saída ao governo; uma aos empresários e outra a si mesmo. Ao governo, ofereceu a sustentação do Senado, a recondução do Procurador Janot – que pedirá a cabeça de Eduardo Cunha –, e um esquadrão antibomba que foi direto ao TCU e ao TSE.

Aos empresários, ofereceu uma agenda que é a derrubada de todos os entraves ao seu espírito selvagem. A Agenda Brasil é a agenda dos sonhos dos grandes capitalistas, derrubando barreiras à exploração e à devastação do trabalho, do meio ambiente, das terras indígenas, dos acordos entre nações em desenvolvimento e da exploração de serviços públicos, como saúde e segurança pública.

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Fonte: UOL

Considerando a dobradinha de Calheiros com José Serra no Senado, o Petróleo parece entrar na conta. Por fim, a si mesmo, Renan oferece a paz e o centro da cena política nacional, não como problema e sim como solução.

Este desfecho parcial de agosto de 2015 lembra muito o de agosto de 1961, quando a condição para que João Goulart não fosse enxotado do governo foi, ironicamente, abrir mão de governar. A solução parlamentarista de Tancredo Neves à época é a solução Renan Calheiros de hoje. A presidenta sai viva, porém enfraquecida, tendo seu poder repartido entre o presidente do Senado e o vice-presidente da República, ambos do PMDB.

No script, cabe à Dilma cumprir as acordos que fez em troca de sua sustentação e correr os cantos da política e da sociedade em busca de sua legitimidade perdida. Aécio Neves recebeu no camarim a notícia de que seu espetáculo épico estava cancelado.

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As ruas e manifestações

A política brasileira, no entanto, tem mais uma dimensão que não cabe nos acordos palacianos. Em junho de 2013 parece ter ocorrido um fenômeno muito importante: a esquerda convenceu a direita do senso comum de que política se faz na rua. Mesmo com a mudança de 180º na postura da grande mídia e do empresariado e com o consequente enfraquecimento dos lideres oposicionistas que articulavam o impeachment, os protestos do dia 16 contra o governo já não podiam ser cancelados.

Aconteceram e levaram às ruas cerca de 800 mil pessoas em diversas capitais. Sem todo o brilho midiático de outras ocasiões e com muitas vacilações emitidas dos próprios setores hostis à Dilma e ao PT (de dentre e fora da chamada “base governista”), o número de manifestantes foi inferior ao verificado em março e pode até ter deixado um gosto de fracasso. No entanto, a manifestação não é quantitativamente desprezível e parece seduzir os políticos do espectro deixados à ver navios no acordo de paz assinado em 6 de agosto.

No dia 20, caminhará o outro lado da rua, movido por instintos de responsabilidade e sentimentos de traição. Não haverá cobertura global, mas fará peso na cena política. Ilustrando a ocorrência cada vez mais frequente de movimentações extra-institucionais, cabe lembrar que 70 mil mulheres estiveram com Dilma em Brasília na última semana na Marcha das Margaridas, sucedidas por um encontro entre a presidenta e as mesmas assinaturas das manifestações convocadas para a próxima quinta-feira. Além do “não vai ter golpe”, os discursos disparavam contra a política econômica do ministro Joaquim Levy e a agenda de Renan.

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Na luta da raposa contra o leão e a hiena, Renan roubou de Aécio Neves a agenda e de Eduardo Cunha a prerrogativa da chantagem. Se no ambiente político, os elementos desagregadores foram marginalizados, na sociedade a mobilização dos polos segue sendo alimentado, podendo causar fissuras que não poderão ser abafadas pelo acordo realizado ao centro.

A elegante engenharia conciliadora dos corredores de Brasília tem uma falha: ela não comporta as caudalosas forças sociais que correm nas ruas. No dia-a-dia da sociedade brasileira, segue crescente a intolerância do justiçamento seletivo que infla o anti-petismo verde-e-amarelo. É crescente também a impaciência da esquerda, de setores populares organizados e movimentos sociais que se veem órfãos, abandonados à própria sorte e à própria mobilização na busca de uma solução para a crise que não recaia com peso insustentável sobre as suas costas.

Os protestos do dia 16 não nocautearam o governo, mas brilham como base social disponível nos olhos de Aécio Neves e outros radicais à direita do espectro político que não aceitarão ficar de fora do jogo efetivo do poder. À exceção de Serra (que faz sua própria costura) e de Alckmin (que deseja um mandato de governador tranquilo e uma candidatura natural ao Planalto em 2018), o PSDB de Aécio Neves, FHC e Aloysio Nunes Ferreira aposta no tensionamento e na aproximação com as ruas, falando em impeachment ou renúncia.

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Foto: Hélio Campos

Já os protestos do dia 20 de agosto, provavelmente menores em número, não serão apenas flores para Dilma, que se verá diante de atores políticos que querem mais que o agradecimento pelo rechaço ao golpismo. O outro lado da rua brilha nos olhos de outros atores de Brasília.

O acordo costurado por Renan joga a boia à Dilma, mas não ao PT e ao ex-presidente Lula. Mesmo padecendo do vício em acordos palacianos, o PT sabe muito bem onde encontrará apoio pra conter a ofensiva de criminalização do partido, que ganha força em tribunais e atentados; e que não existe refeição de graça.

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