Cineastas retiram seus filmes do ‘Cine PE’ como forma de protesto contra a seleção “pró golpe”Cinema

Cineastas retiram seus filmes do ‘Cine PE’ como forma de protesto contra a seleção “pró golpe”

No dia 10 de maio, oito diretores retiraram seus filmes da competição oficial da 21ª edição do Cine PE, importante festival de cinema que acontece na capital pernambucana todos os anos. A atitude é declaradamente política e seria uma forma de protesto contra a curadoria do festival, que estaria alinhada com o golpe de estado ocorrido no ano passado. Em uma nota pública, os realizadores que se posicionaram contra a seleção alegaram:

[a edição deste ano] favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e aos grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao qual não queremos estar atrelados.

Para cineastas como Arthur Leite e Petrônio Lorena, a inclusão de O jardim das afliçõesdocumentário sobre o filósofo conservador Olavo de Carvalho, e do longa Real: o plano por trás da história seriam evidências do alinhamento pró golpe.

Além deles, assinam a nota conjunta os realizadores dos filmes Abissal (CE), A menina só (SC), Baunilha (PE), Iluminadas (PE), Não me prometa nada (RJ), O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras (PE) e Vênus: Filó, a fadinha lésbica (MG). Os diretores planejam uma exibição paralela de seus filmes pelo Cineclube CineRua.


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Diretora do Cine PE e realizadores se posicionam sobre a retirada dos filmes do festival

A diretora do festival, Sandra Bertini, adiou o Cine PE para uma data ainda a ser divulgada. Ela defende a curadoria do evento:

Jamais houve quaisquer formas de politização das programações do festival.

Vale lembrar que o marido de Sandra é Alfredo Bertini, o ex-secretário de Audiovisual que esteve ligado às polêmicas da demissão dos funcionários da Cinemateca Brasileira e da escolha de Pequeno Segredo, de David Schurmann, para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no lugar de Aquarius, grande favorito do ano passado.

A equipe de Aquarius, liderada por Kléber Mendonça Filho, protestou contra o golpe impeachment de Dilma Rousseff na estreia do filme em Cannes. E, por causa disso, a exclusão do filme da competição para o Oscar poderia ter sido uma retaliação política. Em consequência, três diretores também retiraram seus filmes da competição e dois membros da comissão se demitiram.

Josias Teófilo, diretor de O jardim das aflições, publicou na página do filme no Facebook:

Por enquanto, a perseguição vinha sendo velada. Tentaram convencer profissionais a não trabalhar no filme […]. Mas agora ficou evidente. O que eles alegam? O filme vai contra a possibilidade de diálogo. Ou seja, nos festivais brasileiros, você só pode ser de esquerdista petista, esquerda Psol ou no máximo esquerda PSDB. Se for conservador, não pode haver diálogo

O que nós pensamos a respeito disso?

A tradução de uma ideologia política em uma obra audiovisual nem sempre é explícita. Por isso, taxar os filmes selecionados como pró ou contra qualquer tipo de governo antes mesmo de serem exibidos é um tiro no pé. Pregar o diverso e não conviver com a diferença é o que está nos levando à polarização extremista que apenas potencializa a crise (política,social e econômica) pela qual estamos passando. Criar o debate a partir de uma obra audiovisual que vai de encontro com sua ideologia poderia evidenciar seu posicionamento em relação a qualquer ponto. Porém, é inegável todo o background do Cine PE e de seus realizadores. E isso prevaleceu na decisão dos cineastas.

Além disso, vamos usar o exemplo de Real: o plano por trás da história. O filme é uma produção da Globo Filmes (uma das maiores produtores do Brasil). Ele será distribuído para inúmeras salas de cinema. Em geral, os festivais são a porta de entrada de muitos cineastas para o ramo do cinema. São também o meio pelo qual os filmes poderão ser vistos pelo público e quiçá comprados por uma distribuidora.

Os festivais ajudam o cinema a sobreviver. Real: o plano por trás da história já tem data de estreia para o grande público marcada, além de muito incentivo em sua propaganda. Ele já vive e estaria “roubando” a chance de outras produções também serem vistas e, por consequência, também evitaria o diálogo com outras opiniões.

Veja a nota oficial na íntegra:

10 de maio de 2017

Decidimos tornar pública a decisão, conjunta, de retirar nossas obras da seleção do XXI Cine PE Festival Audiovisual, a ser realizado entre os dia 23 e 29 de maio de 2017, na cidade de Recife. Apenas no dia 8 de maio, através de veículos de imprensa, tomamos conhecimento da grade completa dos filmes que foram selecionados para o festival.

Constatamos que a escolha de alguns filmes para esta edição favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao o qual não queremos estar atrelados.

Reconhecemos a importância do Cine PE Festival Audiovisual, do qual muitos de nós já participaram em edições anteriores. Esperamos poder participar de edições futuras e mais conscientes, condizentes com sua grandeza histórica e relevância para a formação de público do cinema brasileiro.

Assinam os representantes dos filmes abaixo listados:

“Abissal” – Ceará
“A Menina Só” – Santa Catarina
“Baunilha” – Pernambuco
“Iluminadas” – Pernambuco
“Não me Prometa Nada” – Rio de Janeiro
“O silêncio da Noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras” – Pernambuco
“Vênus – Filó a fadinha lésbica”  – Minas Gerais”

 

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