Carência afetiva em relacionamento virtual: como lidar?Editorial

Carência afetiva em relacionamento virtual: como lidar?

Senta aqui, precisamos conversar. E muito sério. Que negócio é esse de carência afetiva em aplicativos, redes sociais e em relacionamentos na internet como um todo? Você é assim também na vida real? Bem, coloque a mão na consciência e tente ver se você é grudento quando você está conversando com alguém que você ama. Ou que você queira.

Sim, eu sei que tudo isso é resultado de anos de evolução das interações pessoais, que a cada dia deixam de ser físicas, se tornando virtuais. E isso é um choque para pessoas que, pasmem, têm cerca de trinta anos. Ou não… Bem, como o texto é meu, falarei por mim. E eu tenho uma questão pertinente para levantar. Dá o play e vem:

Carência afetiva e relacionamento cada vez mais fake

Há uma semana aconteceu um caso comigo, caso destes que te deixam pensando por dias. Eu não vou ser hipócrita de dizer que não uso aplicativos de relacionamentos. Uso sim porque beiro as três décadas de vida e estou pensando em adotar gatos. Muito gatos. Gatos de todas as cores.

Ok, voltando… Também não serei hipócrita de dizer que minha vida de solteirão vai bem, obrigado. Às vezes a gente abre os aplicativos apenas para ver o que acontece, mesmo que pareça que estamos escolhendo pedaços de carne no mercado virtual que esta vida é.

Acontece que saudável é aquele que alia real e virtual em medidas, igualmente, saudáveis (mas o que é saudável para você, afinal?). Eu, por exemplo, sou escravo de celular, mas não deixo isso dominar aqueles momentos pessoais e presenciais com meus amigos.

Estava eu indo para o cinema e, enquanto esperava meu lanche ficar pronto no shopping, mesmo com amigos ao lado, resolvi abrir o aplicativo de paquera (palavra do tempo da minha avó, eu sei). Tinha um menino lá que puxou papo, mas como minha comida tinha chegado, fechei o aplicativo e fui comer.

Então depois de comer, fui ao cinema, vi o filme e só voltei a abrir o aplicativo quando a sessão acabou. Tinha mais quatro mensagens do garoto, que deveria ter seus 21 anos. Eu realmente não lembro porque apaguei a conversa dias depois.

A vida ainda é uma grande espera

As mensagens começavam com um “Oi tudo bem? Estamos perto” e terminaram com um “Fútil!“. No meio delas, algo como “Tá afim de bater papo?” e “Não quer falar comigo?

Preciso deixar claro que por mais que eu tenha demorado umas 4 ou 5 horas para responder, as mensagens do rapaz tinham um intervalo de no máximo dois minutos. Juro. Tudo isso juntamente com um “Fútil!” na última mensagem, o que me irritou de uma forma estrondosa.

Preciso dizer também que o garoto não me agradou em nada, e em dias normais eu nem responderia as mensagens dele. E nem precisam me julgar por isso. É assim que as coisas funcionam; se alguém não responde suas mensagens depois de um tempo razoável, é hora de partir para outra.

Respondi então da seguinte forma, com textão mesmo porque eu não sou obrigado:

Eu estava no cinema. Tenho uma vida e dou prioridade aos meus amigos e encontros físicos. Não fico o dia inteiro no aplicativo e nem preciso responder tudo em tempo real. Fútil? Por quê? Só porque eu não te respondi no tempo que você queria?

O garoto então respondeu, dizendo que ~pela demora~ já tinha percebido que eu não iria mesmo responder. Demora! DE. QUATRO. HORAS. Volto a dizer: não preciso responder nada em tempo real. Não preciso sequer responder. Vida que segue.

Aí eu fiquei pensando: realmente existem pessoas que são mais escravas ao virtual que eu! Isso é algo sério, porque parecem-me pessoas que têm medo de rejeição e ao mesmo tempo querem seus desejos atendidos, nem que estes desejos sejam apenas conversas, ou interações mais aprofundadas.

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Foto via Ironias do Grindr

A loucura nossa de cada dia

Desculpe-me, garoto das mensagens, se você chegar a ler este meu texto. Mas realmente você não faz meu tipo. E reduziu a -765 qualquer interesse que eu pudesse ter um dia por você exatamente por essa pressa. E por me chamar de fútil, claro.

Três dias depois, sábado, estava em uma festa com amigos quando alguém me cutuca e pergunta: “Está lembrado de mim?“. Virei e não reconheci. Era o mesmo garoto das mensagens.

Como eu não sou obrigado a muita coisa nessa vida, resolvi tentar cortar o assunto. Respondi que não lembrava, e que minha memória está deveras falha. Essa coisa de memória realmente me afeta, mas uso isso quando quero cortar algum assunto.

Ele insistia: “Você não lembra de mim?“, e completou com um “Nem se você olhar bem nos meus olhos você não lembra de mim?“. Oiê, louco detected! Já sem paciência, eu ficava olhando para o lado e “tentando” lembrar quem era, dizendo que estava lembrando de algo como cinema, aplicativos e uma conversa que não tinha começado bem.

Ele continuou insistindo e eu cedi: falei que finalmente lembrara dele. Nisso, o garoto me solta: “Acho que o destino queria que nos encontrássemos de novo“. Eu já sou conhecido por ser uma pessoa grossa no dia a dia, e nesse caso, nem tive medo de ser assim.

Falei que não acreditava em destino, e ele tentou manter o papo. Talvez finalmente vendo meu desinteresse, ele resolveu pedir desculpa pela forma que tinha reagido, que tínhamos começado mal o papo e etc. Tirando simpatia de onde não tinha, respondi que não tinha nenhum problema, falei que como dissera nas mensagens, valorizo amizades e encontros reais, e que ia fazer isso naquele momento, com meus amigos que estavam se afastando de onde eu estava.

Dei minha mão ao garoto, para me despedir, e ele veio me dando um beijo, ainda bem que na bochecha.

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Foto via Ironias do Grindr

Respeitando as diferenças

Isso também me fez pensar muito. Será que eu poderia ter sido mais simpático? Porque se quem tivesse puxado papo no aplicativo fosse alguém que me interessasse, eu talvez teria mandado um “Oi, tudo bem, e você?” logo na hora. Mas veja que falei “talvez”.

O que importa nem é isso. O que importa é o respeito às diferenças. Por mais que eu não entenda esse desespero por relações instantâneas, eu meio que entendo. Eu penso diferente, eu não acho isso legal. Eu já fui deixado no vácuo em várias conversas virtuais e nem por isso me senti no direito de chamar o outro de fútil ou qualquer outra coisa.

Esse é o jogo da conquista, ajudado ou dificultado pela tecnologia. Se você é ignorado, tanto no real quanto no virtual, você tem a sua própria forma de reagir. Mas talvez, e justamente, por isso, essa insistência em querer papo ou atenção me assusta.

Você tem que lembrar que a primeira impressão ainda é a que fica. Se você não tem confiança em si, tente achá-la. Eu não sou dos mais confiantes, mas mesmo assim tento mostrar qualidades. Seja por uma foto em ângulo melhor, seja por criatividade na abordagem.

A abordagem virtual, falando nisso, é mais fácil justamente porque te permite ficar distante de vários fantasmas da rejeição direta, frente a frente. Então não custa juntar as pecinhas e tentar ser um pouco mais criativo, divertido, sem noias ou pressão.

Somos livres, e se o destino existe mesmo, cada um vai encontrar seu cada um, com pressão, sem pressão, independente de “n” coisas. A pressa é inimiga da perfeição. E não vale esquecer que hoje em dia, mais do que nunca, ninguém é perfeito. Nem eu, nem você.

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Foto via Ironias do Grindr

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