alt-J (∆): musical e cinematograficamente impecável em “An Awesome Wave”Indie

alt-J (∆): musical e cinematograficamente impecável em “An Awesome Wave”

O disco de hoje é exatamente aquilo que seu nome diz: uma onda incrível. O álbum de estréia do alt-J (∆), An Awesome Wave, lançado em maio de 2012, é precioso e complexo.

Aliás, afirmo aqui sem dúvida: An Awesome Wave é um dos maiores discos da década. E olha que ainda estamos em 2014. Me explico, então.

Basta apertar o play para entender que é impossível não ser tomado por esse disco. Canção após canção, riff após riff, coro após coro, é um disco para ser degustado aos poucos, sentindo cada arrepio que ele causa. Não é um daqueles disco que, depois de alguns anos, as pessoas vão pensar “aquele era mesmo um bom disco!” – não, An Awesome Wave é o oposto disso. Seu efeito é imeditado. Esse é um disco do agora.

An Awesome Wave tem a cara dos anos 10: eletrônicos e analógicos agindo juntos numa complexa e intrincada composição, gerando uma sonoridade imagética, cinematográfica, quase palpável. Em Fitzpleasure uma profusão de violões, sintetizadores, arranjos de vozes e baterias eletrônicas coexistem e trabalham juntos para a construção dessa onda de cores e sabores e sensações.

Something Good é uma caminhada incessante repleta de variações sobre o mesmo tema, mas que não cansam – seu arranjo de pianos e baixos combinado com uma exploração de timbres de voz parecem resultar num contraditório folk nascido das sarjetas ao invés das estradas.

Por fim, Taro, a última, tem ares de baladinha britpop indefectível, mas surpreende e, a partir da metade, se transforma numa canção sem palavras que termina com um belíssimo arranjo de cordas para nos deixar flutuando mesmo depois do fim.

Quando digo que as canções são cinematográficas, aliás, não é exagero. As canções do disco já figuraram em várias trilhas sonoras por aí – Fitzpleasure apareceu nos seriados americanos Weeds, Suits e Homeland, enquanto Tessellate foi trilha de CSI: NY e Sons of Anarchy.

Além disso, boa parte das composições tem referências a filmes ou livros. Em entrevista, os membros afirmaram serem fãs do livro de 1963 “Onde Vivem os Monstros”, de Maurice Sendak, e disseram que Breezeblocks, a quarta faixa do álbum, tem seu refrão inspirado no trecho do livro: “Please don’t go, we’ll eat you whole, we love you so” (“Por favor não vá, nós te comeremos inteiro, nós te amamos demais”).

Que os Monstros ameaçam cometer canibalismo para ter aquela pessoa é uma imagem poderosa”, disse Joe Newman, vocalista do alt-J (∆).

A canção Matilda, por sua vez, foi inspirada pelo filme francês “O Profissional”, de 1994, do diretor Luc Besson. O filme é sobre uma menina de 12 anos, Mathilda (interpretada por Natalie Portman), que procura abrigo nos braços de um mercenário, Léon (interpretado por Jean Reno) e, segundo outra entrevista de Newman, “A canção fala sobre a relação de Jean Reno com Matilda e sobre a relação de Léon com Matilda”.

Pra finalizar, o clipe de Tessellate, com direção de Alex Southern, é uma remontagem moderna e urbana do quadro “A Escola de Atenas”, de 1510, do pintor Rafael.

Apesar desse recheio profuso em referências, o não reconhecimento delas ou a não-identificação com os temas tratados por elas não interfere em nada no deleite que é An Awesome Wave. Estas referências e citações são parte orgânica e fluida do disco, encaixadas com perfeição e absolutamente nenhuma presunção dentro desse quebra-cabeças.

A sensação final é de que alt-J (∆) cria, com sua onda incrível, uma espécie de anti-claridade ou anti-clareza. Onde tudo se bagunça com delicadeza, onde as sensações são reveladas pelo que não se mostra. É um turbilhão sutil que nos toma da cabeça aos pés, que nos leva pra longe da praia, quando a onda se recolhe e ficamos, nós, a espera da próxima.

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