A liberdade na internet e a intolerância interpessoalEditorial

A liberdade na internet e a intolerância interpessoal

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Tenho 26anos. Para muitos, é pouco. Para mim, um peso de duas décadas e meia multiplicado por dois. Sim, costumo me parecer mais com meus avós do que com meus primos de 12 anos que já sabem lidar com toda essa tecnologia que a sociedade experimenta a cada dia e, consequentemente, a liberdade na internet. Então me pego imaginando se quando meu avô tinha 25 anos ele se sentia assim como eu me sinto: um velho que já não tem idade suficiente para acompanhar tudo que surge a todo momento.

Explico: Eu cresci quando o Brasil ainda ouvia disco de vinil. Presenciei as fitas K7, vi o primo “modernete” com o primeiro walkman na família. Passei a era dos videogames com cartucho. Fiquei curioso com aquele tal de CD. Já tentei arrumar video cassete para assistir filmes. Tirei fotos com filmes fotográficos, claro. Revelei tais fotos. Queimei várias…

Então veio a internet. Junto com ela, telefones sem fio. Que se desenvolveram e se transformaram em celulares. Não usei ICQ mas vivia no MSN. Aprendi a gravar coisas com o Nero, ouvia minhas músicas no Winamp e demorei mais que meus amigos para ter o primeiro celular, com toque monofônico.

Decerto meu avô não acompanhou essa evolução rápida tão de perto no tempo dele, quando ninguém sequer sonhava que alguém poderia ler um texto como esse em um aparelhinho com tela sensível ao toque conectado 24 horas por dia na internet. Medo.

O perigo de toda a liberdade na internet. Temos como nos livrar dele?

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Chegamos então ao ponto em que eu de fato queria chegar. A sociedade já está bem crescida e sabe usar todas essas tecnologias. Tias têm Facebook (e vivem comentando nas minhas fotos), meus pais já me procuram pelo Whatsapp… Estamos em um momento em que todo mundo pode fazer tudo, de qualquer lugar. E é aí que mora o perigo.

Acho ótimas a acessibilidade e liberdade da internet. Desejo muito que quando eu tiver de fato 50 anos, todo mundo possa acessar notícias, postar em redes sociais e tudo aquilo que hoje ainda está nas mãos de poucos. Acredite. Em pleno 2015 existem pessoas que não possuem banda larga em casa. Lide com isso, meu caro.

O problema é único: todo mundo hoje que tem contato com a internet já sabe bem que aquela liberdade toda atingiu um patamar grotesco. Você pode ser você. Como pode não ser. Com um punhado de conhecimento de alguém, você é capaz de descobrir a senha daquele e-mail e fuçar a vida alheia sem culpa. Minha avó olhava sobre a janela para saber o que a vizinha estava preparando para o almoço. Eu stalkeio e descubro até o preço da carne que meu vizinho comprou para a refeição dele.

Mas então essa liberdade se transforma em “eu posso tudo”. E se tem uma coisa que me estranha é justamente isso. Claro, amo minha liberdade, aprecio a democracia, mas essa coisa de “tudo posso naquilo que fortalece minha postagem” me dá medo. Me dá medo porque as pessoas aprenderam a se esconder atrás de uma tela.

A diferença básica entre bullying e zoeira

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Veja bem: sofri muito bullying nessa vida, num tempo onde bullying era uma palavra que nem existia. Sofri calado, engoli choro, me moldei de uma forma que nada me atinge mais tão facilmente. Sou uma espécie rara, em extinção, de humanos que não têm malícia alguma. Hoje me deparo todos os dias com as mais diversas manifestações virtuais. Uma delas, certa vez, me chamou a atenção: um homossexual foi ameaçado de morte no Facebook por conta de um comentário na internet.

Denunciei quem o ameaçou, mas vocês sabem como são essas coisas: algumas denúncias não vão para frente. Resolvi entrar em contato com o rapaz que foi ameaçado, para saber se ele faria alguma coisa em relação a isso. E, claro, aproveitei para dar uma stalkeada básica no perfil dele no Facebook. Coisa simples, ver as postagens na linha do tempo dele. E vi também que aquele homossexual ameaçado de morte pregava mentiras contra crentes e não-simpatizantes do movimento gay.

Não sei se existe Deus e o Diabo na Terra da conexão. Só sei que não consigo entender estas contradições mundanas do século XXI: você é ameaçado, mas ameaça compartilhando montagens inverídicas. O que mais vejo é homossexual postando frases de repúdio ditas por um pastor “X”. Tal pastor “X”, no caso, sequer existe. Foi inventado por outro homossexual acuado. Tão acuado quanto este homossexual, é aquele temente a Deus que faz a mesma coisa: posta frases de repúdio ditas por um homossexual “Y”. Tal homossexual “Y” também não existe.

Exemplos assim também são vistos em outros grupos de discussão. Brancos X negros, direita X esquerda, machismo X feminismo…

A internet, este grande megafone

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Meu ponto é: sou normal acima de tudo. Ainda julgo. Ainda sou julgado. Sofro preconceitos e tenho os meus próprios também. A questão é que eu venho de uma época de transição, dos avós tolerantes aos netos intolerantes. Aprendi a guardar 70% das minhas opiniões justamente porque sei respeitar a liberdade do outro. Não vou lançar inverdades justamente porque elas são inverdades. Se não tenho certeza, deixo isso claro. Se a incerteza é muita, guardo-a pra mim.

Não sei onde vamos chegar. Mas o futuro digital me assusta. Em uma sociedade que aprendeu a reivindicar seus direitos, o que mais tenho visto é criticadores de plantão. Posso fazer o que eu quiser. Mas não preciso. Tenho discernimento para ver que muitos dos meus atos podem desencadear consequências enormes para mim, para quem eu amo, para você.

Não peço nada. Só continuo sonhando com uma sociedade utópica que seja capaz de respeitar quem está do lado. Uma sociedade que cale a boca quando não souber o que quer. Queria mais respeito, porque eu ainda não tenho malícia e respeito muito quem eu não conheço. Queria apenas poder saber que você do outro lado me lê e compartilha o bom senso.

Internet é megafone, mas não foi criada para isso. Pense mais antes de digitar alguma coisa por aí. Leia mais. Estude mais. Pode continuar tendo seu preconceito. Mas entenda o outro lado, busque saber por que as pessoas agem de forma diferente de você. Tente entender que ninguém é igual a ninguém.

Você poderia aceitar mais e rebater menos. Eu também. Estou caminhando para isso. Será que podemos fazer isso juntos?

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